1 5 7

DIAS PARA O CARNAVAL!

Liga SP

Amarildo não se surpreende com X-9 no Especial e espera briga por título

Escola terminou Carnaval 2018 na 11ª posição e foi a primeira a lançar enredo para o ano que vem: homenagem ao cantor Arlindo Cruz

20/03/2018 Redação Liga SP - Foto: Liga SP
Se alguém ficou surpreso com a permanência da X-9 Paulistana no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, este não é Armarildo de Mello. O carnavalesco, contratado pela escola para 2018 e com renovação acertada para 2019, admitiu que não cair era o primeiro objetivo, mas disse que esperava uma posição ainda melhor que a 11ª colocação na disputa. E para o ano que vem, já com o enredo definido - Arlindo Cruz será o homenageado -, a meta é entrar na briga pelo título.
 
Confira tudo isso na primeira parte do bate-papo com a Liga SP:
 
Liga SP - Começando no Carnaval 2018, você disse que Arlindo Cruz era uma opção. Como foi a concepção do enredo "A voz do samba é a voz de Deus, depois da tempestade vem a bonança"?
Amarildo de Mello - Eu fui convidado pela escola para vir como carnavalesco e uma coisa que me deixou muito feliz foi o fato de a escola ter me convidado exatamente por dizerem que eu escrevo enredo muito bem. Tem comprovado que em seis anos eu tirei sempre 10 em enredo. Até na Águia de Ouro com o enredo sobre cachorro (em 2016, " Amor com amor se paga. Uma história animal!") eu tirei quatro notas 10, foi o único 40 da escola. A escola nem ficou no Especial, mas foram quatro 10 no enredo. E eles queriam um carnavalesco que escrevesse um enredo diferenciado. Eu fiz quatro propostas de enredo e isso me deixou muito feliz porque fazer enredo autoral atualmente é muito difícil. Dentre quatro propostas, uma era o Arlindo Cruz, mas escolheram outra.
 
Liga SP - Você falou no Carnaval passado que a X-9 ia surpreender muita gente. Aconteceu, mas dá pra dizer também que o pessoal achava que a X-9 era uma das candidatas a cair. Isso foi uma surpresa? Como vocês entenderam o desfile, o trabalho e o resultado da escola?
Amarildo - Francamente falando, não cair não foi uma surpresa. Eu sabia que a X-9 ia ficar no Grupo Especial. Talvez em uma melhor colocação. Uma surpresa foi a colocação que ela teve (11º lugar). Poderia ter ficado melhor. Talvez no dia que ela desfilou, no sábado, abrindo e com grandes escolas, o jurado tenha guardado um pouco a nota. E isso talvez tenha nos prejudicado um pouquinho. Mas o grande objetivo de toda a diretoria era ficar no Grupo Especial e nós ficamos. Inegavelmente, após assistir os vídeos dos desfiles, a X-9 foi a escola que mais cantou na avenida e levantou aquele Anhembi. Sendo a primeira de sábado é muito difícil isso. E isso ocorreria se a escola tivesse pro meio, no dia anterior, e talvez uma melhor colocação. Abrir é muito difícil, nós tínhamos essa consciência, porém a escola cumpriu o que a gente esperava. Mudou-se muito o conceito de Carnaval na escola, o nosso componente voltou, brincou, acreditou no projeto.
 
 
Liga SP - Quais foram os principais desafios e dificuldades?
Amarildo - As maiores dificuldades foram com questão de grana. Uma escola que vem do Acesso vem com algumas dívidas, então a gente tinha um dinheiro muito apertado. Mas em contrapartida eu pude exercer minha criatividade; a escola deu muita liberdade de criação. Me diziam: "Esse valor eu não posso investir. Mas pense num valor menor e faça como achar melhor". E isso é muito gratificante.
 
Liga SP - Sobre 2019, você diz que há muito tempo tem o enredo de Arlindo Cruz na cabeça e agora juntou com o Pê Santana, que também tinha. Conta um pouco dessa história.
Amarildo - Essa história é incrível! Quando eu fiz o enredo sobre Dorival Caymmi na Águia de Ouro (em 2014), saí do Anhembi e ia para o Rio de Janeiro confiante de que queria fazer Arlindo Cruz. Me deu uma luz que queria fazer Arlindo Cruz. E eu saí no sábado após o Desfile das Campeãs para o interior do Rio, em Campos de Goytacazes, que é onde moro. Estou no avião após fazer a conexão no aeroporto do Galeão e quem senta do meu lado? Arlindo Cruz. Ele ia fazer um show em São João da Barra. Então ali eu tive a certeza que um dia, mais cedo ou mais tarde, o enredo iria acontecer. Fiquei muito emocionado e falei com ele e ele me disse: "Na hora que você quiser". Tentei fazer na escola anterior que trabalhei e não consegui; ano passado, na X-9, era uma das opções, mas não foi. E qual minha surpresa? Assim que acaba o Carnaval desse ano, eu vou descansar um pouco e depois chego aqui e encontro o Pê Santana com essa ideia também. Já havia uma conversa com a família e foi quando a gente viu que era a hora. Eu não tinha me atentado que são 60 anos de vida dele. Na verdade, coincidentemente o enredo caiu no dia certo, na escola certa e na hora certa. É comemoração de 60 anos e a escola é a que me deu mais liberdade e criatividade de ação artística.
 
Liga SP - Nesse ano, por terem ficado no Grupo Especial, vocês terão mais recursos para fazer o Carnaval.
Amarildo - Isso. E eu conheço mais a escola também, facilidades, dificuldades. O presidente hoje está mais confiante na minha relação com ele e com a comunidade, porque, como você falou anteriormente, ninguém esperava a X-9 como veio. Ela realmente veio diferenciada, balançou a avenida. Acho que isso serviu muito para mostrar pro componente que a gente está pronto para ter esse enredo em 2019.
 
 
Liga SP - Tem muita escola que ainda não anunciou carnavalesco enquanto a X-9 já está até com enredo. Pode ser uma vantagem?
Amarildo - Vamos pegar um pouco do que falamos no enredo anterior: "Deus ajuda quem cedo madruga". É um ditado popular e é uma grande verdade. A gente tem um enredo grandioso, esse projeto precisa de tempo para ser trabalhado, o enredo precisa ser trabalhado com a família do Arlindo. Eu não quero fazer nada sem falar com a família, até por questões espirituais. E isso demanda um pouco de tempo. Já tenho a sinopse, mas vou colher mais informações e dados com a família, coisas que não "estão no Google", vamos dizer assim. Porque o lado mais bacana do enredo é esse, é trazer coisas pra avenida que as pessoas não sabem. E o tempo é muito importante. A gente está querendo montar piloto já, nosso samba vai sair antes também.
 
Liga SP - O que você tem na cabeça já?
Amarildo - Um ponto a ser balizado é que esse enredo não será biográfico. "Nasceu, viveu, é filho de Ogum...". Não é isso. O Arlindo é muito importante pro conceito de vida e o que ele pensa de mundo. E isso vai ser o enredo. A maior questão contida na arte de Arlindo Cruz é a resistência contra a questão da globalização, com as comunidades que ele vive, aquilo que ele aprecisa. Vamos trabalhar a resistência dessa obra que tem um discurso muito importante diante das classes minoritárias. Ele é uma voz daqueles que não podem falar.
 
Liga SP - No contexto do Carnaval como um todo. Você falou que fazer um enredo autoral é mais difícil que um enredo patrocinado. Mas ao mesmo tempo não dá a impressão que o Carnaval de São Paulo tem muitas homenagens?
Amarildo - Olha só, homenagem até que ponto? Esse ano tivemos Alcione, é inegável fazer. Fundo de Quintal? É a história do samba. Eu vi num grupo de discussão que ou é enredo afro ou de homenagem. O afro está na raiz do Carnaval. As pessoas homenageadas estão na raiz do Carnaval. Então acho que vale a pena. Agora, e a ótica do enredo? É importante dentro desses enredos ter uma mensagem de um ponto de vista universão e que não seja só um enredo biográfico, porque aí fica chato. Mas você pega um Arlindo, uma Alcione, um Fundo de Quintal como ponto de partida para trazer a linguagem deles e o que representam para o mundo, para a cultura popular brasileira, aí é um outro olhar.
 
Liga SP - Você disse que tudo esse ano farão um pouco mais cedo. Qual a previsão que vocês têm?
Amarildo - Tem concurso de samba, esse ano está em estudo e ainda não sabemos como vai ser, mas no máximo em 60 dias o samba está pronto. A gente quer em maio e junho entrar em produção de fantasias, começar a mexer em barracão... A gente quer começar mais cedo. Ao mesmo tempo que temos um enredo lindo, tem um grande desafio. Estamos lidando com um dos maiores nomes do samba no Brasil, uma pessoa que tem uma história, 500 sambas gravados. É muita responsabilidade e a gente quer fazer tudo cedo para dar tudo certo. Sem sombra de dúvidas, no ano passado a gente brigava para ficar no Grupo Especial. Esse ano quero brigar para ser campeão. E para isso tem que começar cedo, trabalhar cedo e se organizar para dar certo.