especial carnavalesco - unidos do peruche

Amaury Santos assina seu primeiro Carnaval em São Paulo

Completando 26 anos no mundo do samba, o atual Carnavalesco da Unidos do Peruche tem a missão de retomar a força da tradicional agremiação

16/01/2019 Redação Liga SP - Foto: especial carnavalesco - unidos do peruche

Com uma experiência invejável com grandes nomes do cenário carnavalesco, o carioca, Amaury Santos começou muito cedo no Carnaval, apesar de jamais ter imaginado trabalhar com o seguimento. Em 1993, com pouco mais de 23 anos, surgiu a primeira oportunidade, pelas mãos do atual Carnavalesco da Salgueiro, Alex Souza que na época era assistente do já renomado Carnavalesco, Renato Lage, que hoje defende as cores da Grande Rio, a ideia era apenas colorir um figurino, trabalho rápido de no máximo uma semana.

Funcionário com carteira assina na Fábrica de Tecidos Bangu e com seu salário garantido no fim do mês, o admirador da parte artística do Carnaval, nem planejava abrir mão de sua função na empresa de segunda a sexta para viver com um profissional do samba, afinal, o seu contato mais próximo com o maior espetáculo da terra era a coleção dos seus discos de vinil com os sambas de enredo que ele tinha.

Aos poucos Amaury começou a ser chamado para em paralelo desenvolver projetos pequenos de fantasias e alegorias até chegar ao seu primeiro grande trabalho solo na carreira. “Eu sempre trabalhei com desenhos, personalizava estampas, quando fui chamado pelo Alex Souza e pelo Renato Lage para colorir um figurino da Mocidade Independente de Padre Miguel, confesso que dei uma balançada, principalmente porque no ano seguinte o convite se repetiu e posteriormente com a saída do Alex eu acabei permanecendo ao lado do Renato, foram 10 anos trabalhando com esse mestre, desses inclusive um ano no Salgueiro”, recorda.

Formado em designer gráfico e com passagens também pelas escolas Renascer de Jacarepaguá, União do Parque Curicica, Portela, Caprichosos de Pilares e Estácio de Sá no Rio de Janeiro, Amaury Santos prestou serviços imprescindíveis para o Carnaval de São Paulo durante esse período, nas escolas Águia de Ouro e X9 Paulistana, e declara, que apesar das dificuldades que o Carnaval enfrente todos os anos, ele está muito feliz com as escolhas que foi fazendo ao longo dos anos. “Apesar de toda a instabilidade eu me encontrei nesse caminho, é um trabalho que me dá muito prazer, indefere se eu estou assinando ou prestando algum tipo de serviço, não importa se estou fazendo pintura de arte, projeto de alegoria, a parte de criação do Carnaval em si, tudo isso é algo que me fascina. Eu acho que as dificuldades que o Carnaval tem superam tudo isso, é importante reforçar outro fato relevante, o envolvimento com diversos profissionais é algo que só essa festa pode proporcionar, isso nos faz aprender a cada dia, a troca de ideias é essencial”, afirma.

Quando questionado sobre as diferenças e o amadurecimento que o Carnaval de São Paulo teve nos últimos anos, Amaury é só elogios. “Eu tive a oportunidade de trabalhar muitos anos no Carnaval do Rio de Janeiro, em São Paulo esse é o meu primeiro trabalho solo, apesar de muitas coisas paralelas que já fiz, o que percebo é que a capital paulista está à frente em alguns aspectos. Hoje, consigo destacar dois pontos, ambos estruturais, o primeiro é o suporte na avenida que nos profissionais temos, e o segundo crucial é a grandiosidade que o Carnaval de São Paulo alcançou”, comemora.

Apto a desenvolver tudo dentro de um barracão, Amaury revela que sua grande paixão é ser projetista e seu ponto fraco é a decoração, mas que nada o impede de realizar todas as etapas do processo. “Eu não deixo de colocar a mão na massa, eu desenho, faço o projeto das fantasias, alegorias e as plantas. Mas as vezes eu sinto que tenho menos aptidão na hora de fazer uma decoração, mas o meu olhar não me contradiz, e eu faço”, argumenta.

Alimentando ao lado da comunidade o sonho de retornar ao Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, Amaury Santos garante que a insegurança sempre existe, mas ela deve ser vencida com o trabalho que todos estão realizando dentro do barracão. “Queremos mostrar o nosso trabalho, que considero precioso, único e de muita dedicação por parte de todos. Esse é o meu terceiro ano aqui em São Paulo, apesar de ser o meu primeiro projeto sozinho eu já tenho um pouco de experiência e sei que juntos não vamos decepcionar”, justifica

Hoje, marcando a sua estreia na Unidos do Peruche e com enredo autoral, Amaury Santos promete trazer um Carnaval diferenciado para o Anhembi. “O meu maior objetivo é fazer um enredo africano alto astral, que não explore as coisas que já foram apresentadas por tantas vezes em outros Carnavais. Nossa ideia, é apresentar uma África positiva, abordar o valor que esse negro africano tem, vamos falar da colonização sem massificar a escravidão. A escola chega dividida em quatro setores, primeiro o surgimento do homem, depois a sua colonização, na sequência toda a popularização dessa cultura que se espalha pelo mundo e finaliza com uma África futurista, sem esquecer desse passado ancestral”, conclui.

Quando questionado em quem mais se inspira ao longo de sua carreira, Amaury revela que acredita se inspirar em todos aqueles que já cruzaram o seu caminho, mas, tem um em especial. “Eu sempre gostei muito do estilo do Renato Lage, o traço futurista, mas eu acho que de todos eles Kahê Rodrigues, Paulo Barros, Paulo Menezes, Amarildo de Melo, tem sua parcela no meu desenvolvimento profissional”, reitera.

Acostumado a trabalhar sem recursos, o artista acredita que devemos sempre nos adaptar a situação atual do local e dos profissionais que estamos trabalhando. “Muitas vezes o que fala mais alto é a criatividade, reciclar é um caminho muito utilizado e pode ser o ponto de partida para uma escola de samba. E acredite, isso é o mais difícil, começar do zero é fácil, reciclar é um grande desafio, ai a criatividade é colocada a prova”, reforça.

Considerando o Carnaval da Caprichosos de Pilares, em 2011, o grande desafio da sua carreira Amaury justifica. “Eu tinha um convite para trabalhar com o Roberto Szaniecki, na Portela, mas optei por fazer no Grupo de Acesso A, a Caprichosos de Pilares, sozinho. O enredo era "Gente humilde" e a escola caiu para o Grupo de Acesso B, não hesitei, levantei a cabeça e optei por trazer a escola de volta para o Grupo A e eu fui campeão, lembro que na época a agremiação ganhou 21 prêmios com o enredo "A Caprichosos faz o seu papel... levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!", o ano que caímos eu fiz em paralelo o Carnaval da União do Parque Curicica, e eu tive que abrir mão deles no ano seguinte, não poderia fazer os dois projetos por conta de estarem no mesmo grupo, foi questão de honra trazer a escola de volta para o Grupo de Acesso A, e eu consegui, foi um grande presente”, reforça.

Quando perguntado sobre histórias engraçadas que aconteceram dentro e fora dos barracões e que de alguma maneira estão associadas ao Carnaval, em meio a uma gargalhada Amaury descreve uma passagem com um de seus escultores. “Eu ia e voltava para casa e aquele moço estava ali esculpindo, depois de três dias eu perguntei não vai dormir não, ele me respondeu sempre vou dormindo para casa. No dia seguinte ele chegou e me disse, não falei que eu ia dormindo para casa, dito e feito ontem acabei com o carro, não sobrou nada, bati feio, engraçado, mais trágico”, comenta em meio a outra gargalhada.

Para concluir esse bate papo exclusivo com a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo perguntamos para Amaury Santos qual a sua principal qualidade e aquele defeito que ele não revela para ninguém. “Olha... pensando bem, eu sou muito teimoso, e acho que esse talvez seja o meu maior defeito, agora a virtude, com certeza é dividir as tarefas, penso que se eu revelar os meus projetos com aqueles que caminham comigo lado a lado, no final todos terão o resultado esperado, e a vitória será do conjunto”, finaliza!