Unidos de Santa Bárbara - Anderson Paulino

Anderson Paulino: Do time de várzea para o barracão

Artista confessa que o Carnaval não é visto por ele como uma profissão, mas sim como um prazer que ele escolheu como prioridade de vida

30/01/2019 Redação Liga SP - Foto: Unidos de Santa Bárbara - Anderson Paulino

Paulista, 41 anos, do signo de escorpião, filho de presidente de um time de várzea e admirador do Carnaval de São Paulo desde a Avenida Tiradentes. O atual Carnavalesco da Unidos de Santa Bárbara início o seu processo dentro do seguimento muito cedo, com apenas 10 anos de idade. Com o apoio de alguns amigos da família e até dos integrantes do time de várzea de seu pai, que ao ver os desenhos, deslumbraram um futuro promissor, Anderson, sem perceber iniciava naquele momento o processo de construção do artista, e a possibilidade de se transformar em um profissional do meio vai ficando cada dia mais clara.

Sem levar muito a sério, o jovem garoto não vê nesses comentários a possibilidade de trabalhar com Carnaval, além de não ter nenhuma experiência, ele era muito novo para assumir um papel tão expressivo. “A verdade é uma só, meu pai acreditava que eu poderia ser um jogador de futebol, por isso montou o time de várzea, só que não deu certo, eu fui queimando etapas, e com apenas 14 anos já era um Carnavalesco, na época a Primeira do Itaim, escola que nem existe mais. Tudo aconteceu de forma tão acelerada, eu nunca fui aderecista, figurinista, pintor, enfim, virei realmente Carnavalesco em pouco tempo”, relembra.

Um pouco frustrado, até porque a agremiação foi rebaixada em seu primeiro ano na função, Anderson acho que tudo não passava realmente de uma aventura, mas foi em 1995, que surgiu a Unidos de Santa Bárbara em sua vida, com apenas 16 anos. “Era um bloco, foi logo no ano da sua fundação. Eu fui aprendendo a fazer fantasia, adereçar, desenvolver projetos de alegoria, enfim, hoje graças a essa oportunidade eu faço um pouco de tudo, reconheço o quanto eles foram e são até hoje importantes na minha formação, por isso estou lá até hoje, conciliei outros projetos e até outras escolas, mas nunca deixei a Unidos de Santa Bárbara, somando são 25 anos”, recorda.

Sem remuneração nos seus primeiros anos de carreira, o artista assinala que só conquistou seu primeiro salário como profissional de Carnaval em 2001, e por coincidência na escola onde tudo começou, a Primeira do Itaim. “Eu trabalhava em paralelo com o Carnaval em uma empresa de eventos, fiz até um ano de Faculdade de Moda com a ajuda deles, porém, fui demitido e aí minha alternativa vou começar a me aprofundar mais em projetos relacionados ao Carnaval, foi aí que surgiu novamente a Primeira do Itaim, só que nem eu mesmo acreditava que poderia ganhar dinheiro com aquilo que considerava meu momento de lazer”, complementa.

Autodidata, nesse mesmo ano o Carnavalesco passa a conciliar trabalhos e surge em sua vida a Leandro de Itaquera. “Eu, 22 anos, no Grupo Especial desenvolvendo um enredo sobre política, “Mário Covas - São Paulo - Brasil Meu Orgulho, Meu Amor”, imagina, e eu ainda fiquei com a sexta colocação? Tudo era novidade, tudo era magico e com esse frisson se passaram seis anos de muito conhecimento e trabalho árduo. Eu lembro que teve ano que executei projeto em sete escolas diferentes, juntando São Paulo, Santo André, Santos, enfim, foram anos de muita dedicação”, argumenta.

Quando questionado sobre esses anos dedicados ao Carnaval de São Paulo e as principais dificuldades que já enfrentou e segue enfrentando, Anderson, em meio a uma risada declara que essa resposta deve ser patronizada por todos os Carnavalescos. “Sempre será o dinheiro, infelizmente, a verba que não condiz com os gastos anuais de uma escola de samba. Mas já passei por outros perrengues, existiu um período em que não podíamos usar plumas, nem na ala das baianas e nem na bateria, justamente por falta do produto no mercado. Outra coisa que me incomoda é a vaidade, no Carnaval trabalhamos com o ego das pessoas, o que muitas vezes atrapalha também o fluxo do projeto”, afirma.

Sempre com passagens longas pelas escolas que escreveu e escreve até hoje sua história, Anderson Paulino considera todas as agremiações parte integrante de sua família. “Eu fiz uma fantasia para a Karin Darling, porta-bandeira da Leandro de Itaquera e fui obrigado a refazer, tudo porque ela engravidou. Recentemente eu acompanhei a filha dela participando de concurso de rainha, imagina, eu vi ela na barriga e de repente ela agora é princesa”, comenta como o tempo passa e a vida pode nos surpreender de forma agradável.

Acompanhando ao longo desses 25 anos de estrada a evolução que o Carnaval teve, Anderson lamenta as muitas lagunas que o seguimento nos deixou ao longo desse período. “Eu tenho boas recordações com os presidentes que infelizmente já não estão mais entre nós, aqui nas primeiras reuniões da Liga SP, eu lembro que todos me chamavam de menino. Elaine Cruz Bichara, Seu Basílio, Seu Nenê e o Betinho, enfim, o Carnaval se transformou virou uma empresa e eu sinto um pouco de saudade desses administradores que naquela época tinham uma outra visão da festa”, reforça.

Desenvolvendo o enredo “Caiçara, salve o povo da beira do mar”, o Carnavalesco detalha o que iremos ver na passarela do samba. “Vamos misturar a cultura do povo caiçara, originalmente brasileira com a dos índios e dos brancos. Vamos explorar algumas regiões, de Santa Catarina até o Espirito Santo por exemplo, depois a região da Bahia, as embarcações, os formatos, enfim, todo o sentimento do povo do mar. É um tema leve, mas que tem muito da nossa própria história, a história do nosso país, do nosso povo”, explica.

Sonhador e agregador, Anderson tem planos a médio e longo prazo e brinca com as ideias que as vezes passa por sua cabeça. “Eu sonho em morar em Trancoso e não fazer mais nada da vida, isso a longo prazo. Mas se for pensar no curto prazo, o meu desejo sempre será o mesmo, estar envolvido com projetos de Moda, Carnaval e ao lado da minha família, não só a de sangue mais também a que tenho dentro das quadras de escola de samba. Tenho amizades que cultivo a anos dentro das agremiações que passei, e isso eu não quero perder jamais”, reforça.

Na dúvida de como podemos defini-lo, o profissional dá uma boa gargalhada é descreve uma formula rotineira que só ele mesmo sabe explicar. “Eu sou aquele que junta a família. Sempre que percebem que a minha família está um pouco afastada, um dos meus tios faz questão de me liga, e já vai pedindo logo uma festinha, tudo para reunir a galera. Eles brincam dizendo que eu nasci para isso, as vezes eu reclamo, afinal, adoraria ser um pouquinho protegido, mas, segundo eles só eu tenho o dom de reunir todo mundo de forma passiva e alegre”, enaltece.

Para finalizar esse bate papo exclusivo com a Liga Independente da Escolas de Samba de São Paulo, Anderson Paulino nos revela uma curiosidade. “Eu inventei que a minha rua no Itaim Paulista, zona leste de São Paulo, era a rua do Carnaval, eu fazia as três mil fantasias da Leandro de Itaquera nas casas da rua. Em uma visita da atual parlamentar paulista, Leci Brandão, ao nosso “suposto barracão”, ela se assustou e não imaginou que todas as fantasias da Leandro de Itaquera eram confeccionadas ali, naquela rua. Foi uma época muito rica, de companheirismo, amizade mutua e muita entrega das pessoas, hoje, as pessoas mudaram e infelizmente essa união existe, mas de forma mais contida, e em poucas escolas, na Santa Barbara eu luto para que isso não morra”, se emociona.