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DIAS PARA O CARNAVAL!

andre marins - raio x - tom maior

André Marins um homem da moda que conquistou a passarela do samba

Com mais de 20 anos dedicados ao Carnaval, o artista já desenvolveu fantasias para mais de dez escolas no eixo Rio-São Paulo e até no Sul do país

08/01/2019 Redação Liga SP - Foto: andre marins - raio x - tom maior


Com a arte sempre presente em suas veias, o atual Carnavalesco da Tom Maior, André Martins nunca sonhou efetivamente em trabalhar com o Carnaval, mas muito cedo pelas mãos de Luizinho 28, o artista conheceu o seguimento e desde então já se passaram 21 anos de muito trabalho e dedicação a essa profissão.

Filho de sua grande artesã e formado em Belas Artes, hoje o curso que André escolheu virou secundário em sua vida, afinal, o maior espetáculo da terra foi ganhando proporções que muitas vezes nem ele mesmo sabe definir. “Eu era ligado a moda e por indicação do Luizinho, hoje destaque na Imperatriz Leopoldinense, enveredei para o Carnaval, eu comecei a fazer figurinos para a Caprichosos de Pilares, mas a demanda foi crescendo de uma forma tão rápida que em determinado momento eu estava fazendo trabalhos como figurinista para dez escolas entre Rio de Janeiro, São Paulo e o Sul do país”, recorda.

Com passagens pela Caprichosos, Unidos de Vila Isabel e Unidos do Peruche como figurinista, o primeiro Carnaval que ele assina em parceria foi em 2005 integrando uma Comissão de Carnaval na Acadêmicos da Santa Cruz com Rosele Nicolau, Munir Nicolau e Jack Vasconcelos. “Fiquei por lá 2005 e 2006, depois teve um intervalo que eu fui para a União da Ilha do Governador, e 2009 eu retorno para a Acadêmicos da Santa Cruz e fico até 2010, só em 2011, a convite do Cahê Rodrigues eu venho para São Paulo trabalhar na Vai-Vai”, relembra.

André Marins comenta que nesse período o que o levou a aceitar o convite para desembarcar na capital paulista foi a curiosidade, cuidando de oficinais e palestrando na Universidade Federal do Paraná ele não sabia explicar de forma convincente para os seus expectadores a diferença entre o Carnaval do Rio de Janeiro e de São Paulo. “Eu aceitei o convite para saber com exatidão essa resposta, afinal, eu nunca tinha vivenciado de perto o Carnaval de São Paulo. Eu vim como diretor de alegoria e fiquei por dois anos, de 2012 para 2013 e de 2013 para 2014, em 2015 o presidente Neguitão me convidou para desenvolver o projeto “Simplesmente Elis. A Fábula de uma Voz na Transversal do Tempo”, e fomos campeões, eu, Alexandre Louzada e Eduardo Caetano, meu primeiro título na carreira, foi inesquecível”, comemora.

Ainda com passagens pela Águia de Ouro em 2016 e um retorno que durou poucos meses na Vai-Vai, em 2017, o Carnavalesco ingressa em um trabalho vitorioso no mesmo ano na Tom Maior. “Eu recebi a missão de assumir uma escola em andamento, e tive poucos meses para reformular o enredo “O Brasil de duas Imperatrizes: De Viena para o novo mundo, Carolina Josefa Leopoldina; De Ramos, Imperatriz Leopoldinense” e o resultado foi muito satisfatório, conquistamos a pontuação máxima e só perdemos o título no critério de desempate”, lamenta.

Ciente de que o Carnaval 2019 é o maior desafio de sua carreira, afinal, desenvolve um enredo totalmente autoral, André também deseja agradar a comunidade da Tom Maior. “A ansiedade está sempre presente no meu cotidiano, então nem digo que estou ansioso para o desfile, prefiro acreditar que tenho necessidade de me realizar. Direta ou indiretamente o nosso enredo está sendo muito comentado, temos críticas positivas e meu único desejo é que realmente as pessoas se encantem com o que iremos apresentar”, confia o artista.

Aberto a novas opiniões, o Carnavalesco gosta de reforçar que sempre preferiu trabalhar com o coletivo e que todos os palpites são bem-vindo para se chegar a um consenso final, justo e que agrade a todos. “Aqui na família Tom Maior eu tenho total confiança nas pessoas que trabalham comigo, sendo assim, deixo todos livres para opinar. Todos conhecem o meu trabalho e como eu gosto de conclui-lo, estamos aqui para somar e tornar o trabalho mais fácil a cada dia. Mesmo que eu tenha o Carnaval em uma linha linear, ele pode ganhar novas formas e ir se agregando aos novos profissionais que vão chegando. O Carnaval não é engessado, solidificado... ele tem um ponto inicial e no decorrer dos dias ganha sua forma com a soma de várias ideias”, complementa.

Quando questionado sobre as suas principais virtudes e seus grandes defeitos, André solta uma gargalhada é declara que as vezes se acha um pouco chato, mas que talvez isso não seja um defeito. “Depois de tantos atropelos da vida a gente está sempre se construindo e se fortalecendo como artista. Eu sou chato quando a questão é o acabamento, quando eu não vejo um trabalho bem feito, mas antes de qualquer puxão de orelha eu explico como eu quero a conclusão daquele trabalho. Já o meu ponto positivo é a confiança, eu deixo todos desenvolverem as suas ideias e depois que concluírem eu vou ver, e se tiver que fazer uma limpeza aí eu me intrometo (risos). Mas sinceramente eu confio em todos os setores da escola e deixo eles livres para criarem, a liberdade de um artista não pode ser limitada jamais, por isso ofereço a confiança a todos que trabalham comigo”, argumenta.

Pensando, respirando e vivendo Carnaval 24 horas por dia, o artista confessa que dorme com uma caneta e um caderno ao lado de sua cama. “Muitas vezes de madrugada eu acordo e escrevo tudo que passa pela minha cabeça, não posso correr o risco de acordar e não lembrar mais. Preciso te confidenciar uma coisa, até título de enredo já surgiu em uma madrugada de insônia, e não foi um só não, foram vários, e acredite, sempre são os melhores”, celebra.

Quando perguntado como podemos definir o profissional André Marins, ele diz rapidamente... “Eu sou um pouco de tudo, eu corto, eu desenho, eu costuro, esculpo, pinto... só não faço madeira e nem ferro. Eu sou autodidata em muitas coisas, aprendi na prática com a minha mãe, Dona Iraci, ela é maravilhosa e está presente na minha vida profissional desde sempre. Eu também fiz cursos e me aperfeiçoei na prática”, afirma.

Longe de rivalidades e com uma afinidade declarada por vários profissionais que assim como ele buscam sucesso no Carnaval de São Paulo, o artista reforça a admiração que tem pelos colegas. “Eu e o Sidnei França por exemplo trocamos figurinhas, tomamos nossa cerveja e brindamos a vitória um do outro. Tenho muita admiração também pelo Wagner Santos, acho magnifica a sua linha de trabalho e sem falar na pessoa admirável que ele é. O próprio Rodrigo Meiners, que desenvolve o seu primeiro enredo na Mocidade Unida da Mooca, vivo aconselhando ele, tem um talento absurdo e precisa desenvolver. E tem tantos outros nomes que se eu citar todo mundo vou até amanhã, pior e esquecer de alguém, aí vai fica muito chato, mas que com certeza serão futuramente referencias na arte e no Carnaval brasileiro”, festeja André.

Entre as surpresas que 2019 reservam, além de desenvolver o enredo autoral “Penso... logo existo – As interrogações do nosso imaginário em busca do inimaginável”, André ensaia novos desafios. “Estou muito animado, além do desfile 2019, estou com um musical engavetado que desejo estrear nos palcos esse ano, e tem um livro que também quero lançar até o meio do ano sobre a temática LGBT que a cinco anos tento concretizar e não consigo”, adianta.

Ainda sobre as fortes emoções que o Carnaval de 2018 lhe proporcionaram, André confidencia que até agora não sabe direito o que sentiu quando viu que a Tom Maior teve a pontuação MÁXIMA, e que ficou em quarto lugar por conta do critério de desempate. “Foi um momento tão prazeroso que eu ainda nem me dei conta, de alguma maneira o nome da Tom entrou para história, é a forma como isso aconteceu foi lindo. Na hora eu lembro que não sabia se eu me trocava, se tomava banho, se chamava o Uber, todos da escola me ligavam ao mesmo tempo pedindo para eu ir para quadra. Aí eu peguei o elevador, descobri que tinha esquecido o dinheiro, tive que voltar... sabe uma pessoa alienada, para facilitar eu ainda estava sozinho em casa, enfim, valeu pelo banho de cerveja que tomei ao entrar na quadra”, se emociona.

Quando questionado sobre o que prepara para 2019, o Carnavalesco volta a se emocionar e tenta controlar a inquietude para o dia do desfile oficial. “É um enredo didático desprovido de qualquer afirmação. Jogamos para o inconsciente das pessoas e elas analisam o que estamos projetando. Vamos falar da criação do mundo e quem é esse criador, mas não sabemos o nome dele; abordamos a evolução do ser humano de uma forma mais vanguardista. E trazemos do passado a ideia dos grandes pensadores que eram julgados pela religião e hoje são conceitos e servem de concepção. Vamos falar do misticismo, do medo e da curiosidade do ser humano em querer saber do passado e do futuro. E finalizamos o nosso desfile falando sobre as perguntas que não tem resposta e que nos faz refletir... Nascemos de onde? Vamos para onde? Somos só nos nesse universo imenso? O que nos difere dos outros animais? E qual será o nosso destino... Inferno? Purgatório ou Paraiso?”, questionará o Carnavalesco na passarela do samba.

Com esse enredo engavetado há 15 anos, o único desejo de André Marins nesse Carnaval é trazer leveza e muita reflexão para o desfile da Tom Maior. “Espero que essa loucura, esse pensamento que surgiu na minha cabeça seja entendido, admirado e aceito por todos aqueles que estiverem acompanhando o nosso desfile. Só quero encantar”, finaliza André Marins nesse bate papo exclusivo com a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo.