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André Machado: Um Carnavalesco que sonhou desde cedo com esse ofício

Apaixonado pelo grande espetáculo, aos 13 anos o artista criou o seu primeiro enredo de Carnaval

26/11/2018 Redação Liga SP - Foto: andre machado materia carnavalesco

Natural do Rio de Janeiro, do bairro de Cavalcanti, André Machado hoje com 44 anos descobriu com poucos anos de vida a sua paixão pelo Carnaval. Aos sete anos, assistindo pela TV, a escola carioca Império Serrado, ele decidiu que de alguma maneira aquele seria o seu ganha pão.

Aos 13 anos, não teve dúvida, escondido de seus pais escreveu o seu primeiro projeto intitulado “O Mundo Encantado dos Planetas” e apresentou na Em Cima da Hora, a escola onde deu seus primeiros passos. “Me lembro como se fosse hoje, era uma quarta-feira, uma mesa gigante, e eu ao lado de uns 20 diretores com a minha pastinha debaixo do braço. No momento em que abriram para as pessoas explanarem os enredos, eu levantei meu dedinho e disse, “Eu tenho um enredo”, como os olhos arregalados todos ficaram curiosos para saber o que aquele garotinho tinha a dizer. Expliquei ala por ala e fui mostrando os meus desenhos e como seriam as alegorias. Obvio que eles não dariam espaço para um menino de apenas 13 anos, mas confesso que eles começaram a me ver com outros olhos e depois de algum tempo eu fui convidado a desenhar para a agremiação”, relembra.

Magoado com a decisão dos diretores da escola, André resolve se afastar, mas no fundo algo lhe dizia que essa seria apenas uma virgula em sua história, jamais um ponto final. “Meu sonho era ser Carnavalesco, a figura desse profissional era a que mais se comentava no desfile das escolas de samba na transmissão da TV. Eu tinha álbum de figurinha, recorte de jornal, enfim, recordações de um menino sonhador que com a primeira decepção resolveu juntar tudo no quintal de casa e botar fogo... risos, revolta de quem toma o primeiro não. O engraçado é que mesmo magoada isso não me afastou da escola, fui para a ala das crianças, depois para a bateria, até que um dia eu desenhei um Carnaval para o Amarildo de Melo, hoje Carnavalesco da X9 Paulistana. Em paralelo eu fui me aperfeiçoando e fiz diversos cursos, desenho de moda, de estamparia, de figura humana, tudo para me aprimorar, até que um dia o presidente me nomeou o Carnavalesco da Em Cima da Hora, isso foi em 1997”, recorda.

Coincidentemente no mesmo ano, André se formou no curso de corte e costura pelas mãos do sociólogo Betinho integrando o projeto “Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida”, o que lhe deu um pouco mais de confiança. “Eu lembro que fui para o Saara, totalmente perdido, eu não conheci nome de nenhum material, entrava nas lojas e questionava para que servia cada tecido, cada adereço, e num pedacinho de papel colava esse material para saber depois qual a função de cada um deles, e questionar como tudo aquilo poderia ser usado no meu desfile. Me lembro também que muitas pessoas do projeto do Betinho nesse ano, me ajudaram no barracão”, afirma.

Mesmo demonstrando um certo preconceito com o Carnaval de São Paulo, no ano seguinte André aceitou o convite para desenvolver o enredo da Barroca Zona Sul e já na primeira semana toda a ideia que tinha sobre a capital paulista ser o tumulo do samba foi por água abaixo. “De cara me levaram para ver um ensaio da Vai-Vai, final de samba-enredo, aquela multidão na rua, indescritível. Depois de alguns dias eu fui na Nenê de Vila Matilde, fiquei maravilhado e tive a certeza, aqui se faz Carnaval tão bem quanto o Rio de Janeiro”, comprovou o artista.

Na Barroca, André ficou por três anos e na sequência retornou para o Rio de Janeiro para ser assistente do Carnavalesco Jaime Cezário, na Caprichosos de Pilares, esse foi um período importante e de muito aprendizado. “O Jaime me ajudou muito, eu aprendi com ele a fazer uma planta, tirar o desenho artístico e transformar em desenho técnico. Ele como arquiteto tinha uma outra visão das plantas e dos projetos. E eu como assistente tinha contato com todos os setores, marceneiros, serralheiros, aderecistas, enfim, tudo isso me rendeu muita bagagem e me deu mais convicção de que eu poderia voltar para São Paulo e me realizar por aqui”, garante.

Em 2002, o Carnavalesco assumiu a Imperador do Ipiranga, no ano seguinte além de desenvolver o enredo da escola da Zona Sul, André Machado também desenhou o projeto da Mocidade Alegre o que lhe rendeu uma maior projeção. Para 2004, as responsabilidades cresceram, e André assina seu primeiro Carnaval no Grupo Especial. “Foi um Carnaval antológico, o samba ficou marcado e a própria Imperador do Ipiranga admitiu que aquele até então havia sido o melhor desfile de sua história. Por lá permaneci por quatro anos e depois bati asas para a Nenê de Vila Matilde. Na sequência fui para a Império de Casa Verde, por lá ganhei o prêmio de melhor enredo e melhor alegoria. Em 2009, com a sensação de que precisava de novos desafios assumi a Pérola Negra, onde fiquei por seis anos”, lembra.

Durante o período que esteve na escola da Vila Madalena, André desenvolveu dois enredos que ficaram marcados na sua trajetória “Guiado por Surya pelos caminhos da Índia em busca da Pérola sagrada”, em 2019 e “O espetáculo vai começar, Pérola Negra apresenta: O Auto da Compadecida”, em 2013, não apenas por belos desfiles, mas pelo reconhecimento do público e da crítica especializada.

Durante os anos de 2015 e 2016, esteve na X9 Paulistana. A três anos o artista defende as cores da Sociedade Rosas de Ouro e em 2019 prepara um enredo autoral “Viva Hayastan”, uma homenagem ao povo Armênio, nesse bate papo exclusivo com a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, ele revela como surgiu a ideia de colocar na avenida essa história. “Ainda no processo 2018, assistindo um Globo Repórter eu me deparei com os encantos e o sofrimento do povo Armênio, no dia seguinte comentei com a Presidente Angelina Basílio, que envolvido com os preparativos do desfile daquele ano não me deu muita atenção. Eu engavetei e assim que assinei o meu contrato com a escola para 2019, reafirmei a ideia de contarmos essa história, e apesar de outros três enredos estarem na disputa esse prevaleceu”, comemora.

Empolgado com o desfile, André Machado conta detalhes do que iremos apreciar na passarela do samba com a história do primeiro país a adotar o cristianismo. “Esse enredo traz muita história, a Armênia em 1915 sofre um Genocídio onde um milhão e meio de pessoas foram mortas, hoje existem 11 milhões de armênios no mundo, porém, apenas 3 milhões vivem na Armênia, o resto está por aí, espalhado pelos cinco cantos do planeta. Isso é algo que poucas pessoas sabem, fora a parte cultural, gastronômica e turística que a cidade oferece aos seus visitantes”, complementa.

Sempre trabalhando com reciclagem o profissional reconhece que hoje todas as escolas de samba passam por algum tipo de dificuldade e precisamos de alguma maneira ligar a escola ao componente, e foi o que eu fiz aqui na Rosas. “Eu gosto de trabalhar com o amor daquele que vai vestir a fantasia, o meu Carnaval sempre foi participativo, o folião sempre acaba de alguma maneira não somente integrando os ensaios, mas também confeccionando a sua própria fantasia, ou de repente ajudando em uma alegoria. Por questões financeiras eu agreguei as comunidades das escolas por onde eu passei. Aqui na Rosas quando eu cheguei o processo era trabalhar de segunda a sexta, hoje trabalhamos de segunda a segunda, em nome de um bem maior, o nome da instituição e de um bem maior, um resultado positivo na apuração”, afirma.

Considerando um homem de sorte, André Machado, reitera que o Carnaval pode ser comparado a uma partida de futebol, quem escala o time é o presidente da escola de samba, o Carnavalesco é apenas o atacante, muitas vezes para fazer o gol ele precisa que os outros jogadores passem a bola para ele partir para o abraço. “Confesso que para chegar nesse nível de amadurecimento eu demorei um pouco, no início eu tinha dificuldades de delegar as funções dentro do barracão, fazer Carnaval é como num time, os onze tem que entrar em campo”, desabafa.

Ciente de que o Carnaval é feito em equipe, nos dias de hoje André equilibra o trabalho. “No Carnaval precisamos sim ter condições de jogo e infelizmente no começo da minha carreira eu colocava essa responsabilidade inteira nas minhas costas, e sofria com isso, me cobrava, queria que a escola estivesse entre as cinco primeiras, se não, me considerava um fracassado, e a engrenagem e muito diferente de tudo isso. Me recordo que em 2006, a Nenê de Vila Matilde estava entrando na Avenida e eu estava colando tecido no quarto carro, foi nesse ano que eu aprendi a fazer Carnaval, e um grande professor foi o Marco Aurélio Ruffin, que na época defendia as cores da Tom Maior. O Marco me deu um puxão de orelhas e disse, fazer Carnaval é muito diferente disso, quem coloca a escola na avenida é a própria escola, sua função e desenhar um projeto e entregar esse projeto, o resto caminha sozinho”, relembra o conselho.

Hoje mais centrado, André, reafirma que conquistar um título é consequência, você pode executar um excelente trabalho e no fim das contas ele te rendera outros frutos que não o título. “Existem Carnavais que não foram campeões, porém, eles são mais lembrados do que os que efetivamente conquistaram o título, te dou um exemplo do Rio de Janeiro, a Imperatriz Leopoldinense foi a campeã em 1989, mas naquele ano, o Carnaval mais comentado, e lembrado até hoje foi o da Beija-Flor, “Ratos e Urubus”, de Joãosinho Trinta”, argumenta.

Casado e com três filhos, o artista revela que a família é o seu grande alicerce e que jamais voltaria no tempo para exercer outra profissão. “Minha esposa, meus filhos e minha mãe torcem o tempo todo por mim e isso acaba sendo um combustível. Eu escolhi o caminho certo, jamais conseguiria exercer outra atividade na minha vida. Só tenho o segundo grau e tudo que conquistei, devo ao Carnaval. Tudo que sei sobre história da arte, história da humanidade, desenho, criação, enfim, foi o Carnaval que me proporcionou. Por mais que eu tenha feito cursos, me interessado, se eu não estivesse aqui, nada seria possível, eu nunca tive carteira assinada, tudo que eu tenho efetivamente foi o seguimento que me deu”, se emociona.

Quando questionado sobre o seu grande sonho dentro do Carnaval, André é incisivo. “Eu voltaria um dia para o Carnaval carioca se fosse para desenvolver um enredo na minha escola do coração, a Império Serrano. Se um dia me convidarem para fazer um desfile lá, não conseguiria recusar, eu já disse para minha mãe, se eu desenvolver um enredo na Império Serrano no dia seguinte eu posso morrer, que estarei realizado plenamente”, complementa.

Finalizando o seu bate papo exclusivo com a Liga SP, André, fez questão de reafirmar o seu amor pela cidade de São Paulo e o Carnaval que aqui vem desenvolvendo. “Eu tenho uma gratidão enorme por essa metrópole, antes de chegar aqui eu confesso que tinha um certo preconceito, mas hoje, só tenho amor para distribuir. Muitas vezes pensei em desistir, mas os amigos que fiz na capital paulista, a família que formei aqui me mostra diariamente o quanto eu sou importante para essa festa e que posso somar com ela. Eu não quero ser o melhor Carnavalesco de São Paulo, quero ser o mais completo”, finaliza!