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DIAS PARA O CARNAVAL!

anselmo brito raiox 2019

Anselmo Brito: um artista movido pela vontade de viver

Superação é a palavra que mais se repete no dicionário de vida do Carnavalesco Anselmo Brito

03/10/2018 Redação Liga SP - Foto: anselmo brito raiox 2019

O Carnavalesco Anselmo Brito é uma daquela pessoas que agradece diariamente por sua vida, por sua família e principalmente por exercer com tanto amor a profissão que escolheu desde muito cedo. Com apenas 14 anos, o artista se interessou pelo mundo do Carnaval e desde então não parou mais. Aqui em São Paulo, já são 18 anos dedicados a arte de desenvolver um projeto desde o papel até a última pluma. “Eu comecei na escola Santa Cruz, lá no Rio de Janeiro, depois passei pela Rocinha, Unidos de São Lucas, Cabo Sul, Unidos de São Miguel, enfim, fiquei na ponte aérea entre Rio-São Paulo por alguns anos, acredito que aqui em São Paulo já trabalhei em mais de 12 escolas”, relembra.

O primeiro Carnaval que assinou sozinho foi no bloco “Me Engana Que Eu Gosto”, e desde então teve a certeza de que essa seria sua profissão para o resto da vida. “Eu aprendi e convivi com tantas alegrias e dificuldades, foram trabalhos no Grupo Especial, Grupo de Acesso 1 e 2, Uesp, blocos, enfim, eu lidei com problemas desde as suas raízes. A verdade é que só conseguimos desenvolver grandes projetos sabendo a base de tudo isso”, completa.

Com uma formação voltada para a história e por conta do Carnaval uma migração para a cenografia, Anselmo Brito, começou como aderecista e persistiu até conquistar seu lugar ao sol, afinal, segundo o profissional, para se manter é preciso muito estudo, criatividade e humildade. “Eu sou um dos protagonistas desse grande caldeirão chamado Carnaval, aprendi muito com os meus mestres e agradeço até hoje cada ensinamento. O maior deles sem dúvida é a flexibilidade, até porque aquilo que você não tem no bolso, você tira da cabeça, cria e recria”, reitera.

Tendo como referência nomes expressivos do Carnaval como o casal Renato e Marcia Lage e a veterana Rosa Magalhães, o artista não esquece daqueles que de alguma maneira contribuíram para sua formação. “Eu tenho um carinho imenso pelo Wagner Santos que sempre me ajudou demais e outros tantos, que tenho até medo de esquecer como André Machado, Jorge Freitas, Amarildo de Mello, enfim, eu aprendi bastante e ainda sigo aprendendo”, comenta emocionado.

Vítima de câncer no pescoço em 2002, Anselmo declara que é presenteado todos os dias pelo Carnaval. “No período da doença, foram meses de muita depressão, mas o Carnaval me curou. Na época eu estava desenvolvendo um projeto para a escola de samba Prova de Fogo, hoje na UESP, e se não fosse o apoio do Presidente já falecido, Celso Lima e sua família esse processo de cura talvez não acontecesse”, recorda agradecido.

Deficiente visual e com limitações, hoje, Anselmo tem apenas 35% de sua visão do olho direito, e mesmo assim segue trabalhando muito naquilo que lhe dá mais prazer, desenvolver enredos em escolas de samba. Portador de uma doença chamada Ceratocone, hereditária, e que aos poucos vai impedindo a visão sua rotina é diferenciada. “Hoje eu uso uma prótese ocular, ela é necessária para eu me locomover e até trabalhar. Recentemente eu fui chamado para um transplante, mas por ser hipertenso, não consegui, agora sigo aguardando e acreditando que a limitação está na cabeça das pessoas e que no fundo ela não existe. Na vida nos precisamos de um condutor para nos motivar, não um amuleto, o meu condutor é o Carnaval”, declara o artista.

Desenvolvendo pelo terceiro ano o enredo da escola de samba Pérola Negra, Anselmo Brito já viveu momentos de angustia e superação, mas a principal lição é não se acomodar jamais. “Ano passado eu perdi a minha prótese e fique duas semanas sem enxergar absolutamente nada, foi desesperador não ver as formas, não enxergar as cores, não ter noção de como o meu trabalho estava ficando. Eu só voltei a enxergar exatamente um mês antes do Carnaval”, rememora.

Grato a quem lhe foi, e é fiel a anos, Anselmo não cansa de dizer obrigada e reconhecer a dedicação dessas pessoas. “Deus sempre coloca anjos em nossas vidas, devo muito ao também Carnavalesco Ivan Pereira, que está comigo a 12 anos. A minha irmã, Valquíria que a mais de 20 anos me auxilia no dia-a-dia e na construção dos meus enredos”, afirma.

Prova de que Anselmo se supera a cada Carnaval, o enredo de 2019 da Pérola Negra, “Da majestosa África, tu és negra mulher guerreira a verdadeira Pérola Negra”, é autoral e o primeiro da agremiação Afro. “Meu trabalho de pesquisa foi baseado na mulher negra, quero mostrar o empoderamento dessas muitas joias raras que são referência em tantas profissões e por vezes não são valorizadas como merecem”, explica.

Tímido, mas com um astral invejável, o artista aguarda na fila seu transplante e segue esperançoso que depois do Carnaval de 2019, ele realizará sua tão aguardada cirurgia. “Estou confiante, mas não posso esconder que tenho medo de não ter os resultados que preciso, me apego nas possibilidades que ainda a medicina me oferece, no caso esse transplante é a minha tábua de salvação”, confessa confiante.

O artista encerra esse bate papo exclusivo com a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, agradecendo mais uma vez todos aqueles que de maneira direta ou indireta contribuíram para que a cada dia ele superasse mais e mais as suas dificuldades visuais. “Eu tinha muita vergonha de não ter 100% da minha visão, sempre tive a impressão de que quem não conhecia a minha história nunca me daria uma oportunidade. Tinha a insegurança dos outros acharem que eu não daria conta do recado. Por isso agradeço publicamente a todos aqueles que me deram um voto de confiança, e quero me superar ainda mais, se Deus permitir”, finaliza!