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DIAS PARA O CARNAVAL!

Dione Leite - Tucuruvi

As idas e vindas que tornaram Dione Leite um profissional do Carnaval

Aos 42 anos, o atual Carnavalesco da Acadêmicos do Tucuruvi assume um dos maiores desafios de seu currículo

22/10/2018 Redação Liga SP - Foto: Dione Leite - Tucuruvi

Natural de Pelotas, no Rio Grande do Sul, Dione Leite vem de uma família de sambistas, porém, afastados nos seus primeiros anos de vida. Mãe costureira e pai engenheiro mecânico, ambos frequentavam a Estação Primeira do Areal, a escola 12 vezes campeã do Grupo Especial, em sua cidade natal, sempre influenciou na vida do Carnavalesco.

Autodidata com seis anos, ganha o seu primeiro concurso de desenho na escola, e para seguir desenvolvendo essa aptidão, Dione, criou uma estratégia. “Eu sempre dava um jeito de minha mãe comprar um caderno a mais, mentia, dizia que tinha uma matéria que precisava de dois cadernos e usava esse segundo para desenhar. Era o caderno “escola de samba”, nele, tinha o desfile completo, os carros alegóricos, as fantasias, destaques, enfim, era cômico, mas era o meu Carnaval”, brinca.

Admirador do Carnaval carioca, suas primeiras experiências foram frustrantes e aconteceram na própria cidade de Pelotas, o que fizeram com que Dione pensasse que era avesso a folia. “Apesar de começar desfilando em um cambão, a lembrança mais viva que tenho dessa época, e de um menino vestido de Chaplin que me deu uma bengalada, eu saí do desfile com o olho roxo parecendo uma bola de sangue, ardia tanto”, recorda.

Um ano depois, para acompanhar sua irmã mais nova, Dione participou das audições e foi selecionado para compor a comissão de frente da Primeira do Areal, dessa experiência inesperada, onde além de dançar teve que confeccionar a própria fantasia, surgiu o interesse e a necessidade de conhecer mais o seguimento. “Desse momento conturbado eu aprendi a arte de amar. Fiquei na agremiação por 13 anos, fui chefe de barracão e ajudei muito na criação e confecção dos desfiles”, rememora.

Em paralelo com o trabalho dentro do barracão, o artista criou a sua própria grife de moda, e passou a ser reconhecido, ganhando fama em várias cidades do Rio Grande do Sul. “Eu fiz muitos vestidos de noiva, era solicitado para confeccionar desde a protagonista da festa até as madrinhas e convidadas. Trabalhei por 4 anos com Miss, elaborei muitos vestidos de gala e tive a honra de criar também para a alta sociedade do meu estado. Isso me deu popularidade e muito prestigio, que eu abri mão quando vim para a capital paulista”, relembra.

No entusiasmo de conhecer o novo, entre as idas e vindas a São Paulo para compra de material para a Primeira do Areal, Dione recebe o convite para ficar. “A princípio eu cheguei em São Paulo para trabalhar com o Chico Spinoza, desenharia para ele alguns figurinos, mas não deu certo. Amigos que fiz nas tantas vezes que visitei a capital paulista me ofereceram a oportunidade de um trabalho como estilista, e eu aceitei, decidi trabalhar no atelier do Mi Benassi, o que foi muito sofrido, não pelo trabalho em si, mas pela saudade de casa. Apesar de todo o apoio e de ter feito outros grandes amigos, eu sentia falta da minha família, dos meus pais, acredita que eu chorei um ano e pensava todas as noites em voltar? Mas sabia que esse desafio me renderia muitas oportunidades, aprendi muito e não desisti”, comemora.

Posteriormente trabalhei por mais cinco anos em outro ateliê e imaginei que estaria fora do Carnaval, afinal, o trabalho era apenas com alta costura, mais uma vez fui surpreendido. A dona era amiga pessoal do Carnavalesco Jorge Freitas, o que me levou a conhece-lo e futuramente elaborar para ela a minha primeira fantasia de destaque. “Juro que quando comecei a trabalhar nesse atelier, achei que nunca mais teria envolvimento com Carnaval, mas sinceramente, estava no meu destino, percebi que o seguimento estava novamente batendo a minha porta”, argumenta.

Na expectativa de dias melhores e com o fechamento desse ateliê, Dione resolve começar a trabalhar em casa e voltar a alta costura, mesclando com trabalhos customizados. Só que como o próprio artista afirma, o universo seguia conspirando a favor do Carnaval, e o convocou novamente para mais um trabalho. “Reencontrei o Vado, amigo de longa data e que até hoje é o apresentador do primeiro casal de Mestre Sala e Porta Bandeira da Dragões da Real, ele me contou que a escola estava procurando alguém para desenvolver as fantasias da ala das passistas e agendou uma conversa minha com o Tomate, presidente da agremiação. O bate-papo não me rendeu o desenvolvimento desse trabalho, mas sim, uma oportunidade muito melhor. Realizei as composições de uma alegoria e as roupas de rainha e musa da escola”, comenta satisfeito.

O reconhecimento foi tanto que no ano seguinte, 2014, Dione virou assistente da Carnavalesca, a carioca, Rosa Magalhães. Ao todo foram cinco anos defendendo as cores da Dragões, mas como todo trabalho tem seu começo, meio e fim, chegou o momento de alçar novos voos, e Dione se considerou pronto para assumir os obstáculos de uma nova empreitada que à vida lhe propunha, dessa vez ele assumiria sozinho o Carnaval de uma escola de samba, a Acadêmicos do Tucuruvi. “Hoje eu estou com 42 anos, e assino o meu primeiro Carnaval, com um enredo autoral, sinceramente, não tenho dúvidas que a vida me preparou para estar aqui”, reafirma.

Sem desmerecer aqueles que tem um diploma, Dione revela que a sua faculdade foi a vida, e que teve nos pais o seu maior respaldo para acreditar que seria possível viver de arte. “Eu tenho a vivencia com a minha mãe e a máquina de costura, o meu pai e as suas referências como engenheiro, tive e tenho até hoje a orientação de todos os meus amigos e parceiros com quem eu trabalhei e trabalho, enfim, tenho certeza que essa foi a melhor faculdade que eu poderia ter tido”, argumenta.

Mantendo as tradições de sua criação, e provando o quanto os amigos que fez ao decorrer dos anos vive em São Paulo, Dione não abre mão de estar com quem lhe estendeu a mão quando por aqui desembarcou. “Nas festas de fim de ano, todos estão sempre com suas respectivas famílias, mas eu faço questão de umas duas semanas antes reunir todos em minha casa, fazer uma ceia bem gostosa e celebrar a vida, e isso se repete na semana santa, enfim, em datas importantes que pedem a presença daqueles que amamos. Essa foi a minha criação e nunca quero perder essa essência”, argumenta.

Intitulado “Liberdade. O canto retumbante de um povo heroico”, o enredo autoral de Dione Leite e que lhe dá a oportunidade de desenvolver o seu primeiro desfile solo, terá como ponto de partida a luta pela liberdade na história do Brasil, desde a sua descoberta até os dias de hoje. “Teremos na avenida uma Tucuruvi mais enxuta e muito audaciosa. Apesar de ser um tema sério, não faltará o colorido e um folião livre para brincar e se dedicar ao desfile, como tem que ser o Carnaval”, retrata.

Cada dia mais seguro e confiante, o artista segue acreditando em projetos que pareciam utópicos. Hoje, os sonhos se tornam cada vez maiores e mais desafiadores. Para tornar a ficção em realizada, em 2017 ele subiu mais um degrada da fama, foi o primeiro brasileiro a desenvolver uma linha de mascaras exclusivas para o Cirque du Soleil, com o espetáculo “Amaluna”, e não pense que ele parou, em 2019, a mesma linha já segue em desenvolvimento para o espetáculo “Ovo”. “Estou extremamente satisfeito, assinar um produto oficial do Cirque Du Soleil é muito legal, um reconhecimento indescritível”, admite realizado.

Entre tantos recomeços, quando questionado o que podemos esperar desse desfile com a Tucuruvi, Dione é convicto. “A Tucuruvi terá os melhores carros alegóricos, não, terá o melhor samba, não, terá a melhor plástica, não. Ela terá o que é melhor para ela. Hoje eu quero chegar na baia, e não ter os carros mais bonitos, as fantasias mais arrojadas, o melhor samba ou a plástica que mais surpreenda. Eu quero que quando a escola entre na avenida todos vejam a verdadeira história a ser contada, que cada ala que passe aos olhos do público aconteça uma identificação com um problema do seu do dia-a-dia e que todos se vejam representados com o nosso desfile. A minha busca é criar uma conversa interna entre a escola e quem estiver na arquibancada”, ressalta o Carnavalesco.

Consciente de que o título do Carnaval 2019 será uma consequência, Dione Leite, encerra esse bate papo exclusivo com a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo declarando que a realização do outro é a maior satisfação que ele pode ter e por isso a comunidade do Zaca pode acreditar que terá o melhor desfile de sua história. “Podem esperar a melhor parte de mim”, conclui!