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DIAS PARA O CARNAVAL!

Marcelo Messina/LigaSP

Autocrítica, honra e organização: como a MUM já se planeja para estreia no Acesso

Carnavalesco André Rodrigues fala sobre resultado do Carnaval 2018, novo enredo e expectativa para encarar escolas mais tradicionais em 2019

18/04/2018 Redação Liga SP - Foto: Marcelo Messina/LigaSP

A Mocidade Unida da Mooca está em festa. Campeã do Grupo de Acesso 2, a escola irá disputar pela primeira vez em sua história o Grupo de Acesso. Em meio à comemoração, porém, a agremiação já pensa no Carnaval 2019 - nesta sexta-feira (20), irá anunciar seu enredo para o ano que vem.

Com passagem rápida pela Independente e contrato renovado para sua segunda temporada na MUM, o carnavalesco André Rodrigues está ciente da responsabilidade. Até mesmo por isso, em meio à análise sobre o desfile de 2018 e o respeito pelos futuros adversários - escolas do porte de Camisa Verde e Branco e Nenê de Vila Matilde, para ficar só em duas -, o profissional destacou o que não pode faltar: humildade e organização.

Liga SP - Como foi desenvolver o Carnaval 2018?
André Rodrigues - Quando eu entrei, a escola estava um pouco abatida com o vice-campeonato do ano anterior porque eles acreditavam muito no título. E acho que foi bom para mim e para a escola, porque foi o momento ideal para eu voltar como carnavalesco em São Paulo e foi um projeto diferente para a agremiação reacender a chama e a vontade de ganhar. E aí começou uma reestruturação interna. Escola de samba que eu acho legal é aquela que se revê a todo momento. A autocrítica é muito mais importante do que o resultado final, porque só com a autocrítica você consegue resultado. Então, apesar do vice-campeonato, nós tivemos que rever algumas coisas aqui dentro. Coisas muito pontuais e pequenas, mas que faziam diferença no resultado final. Nós reorganizamos ateliê, algumas maneiras de ver fantasia e alegoria... Foi um Carnaval com mais forração, com um pouquinho menos de adereço, mas super funcionou, porque foi baseado em cor e forma. Foi desafiador, mas ao mesmo tempo foi muito gostoso de fazer. Foi um desafio bom, porque a escola deu total liberdade pra faer isso. E hoje eu posso dizer que o melhor que eu já trabalhei foi a Mooca por conta disso, da liberdade de trabalho, liberdade de pensamento.

Liga SP - Como foi o contato para você trabalhar na MUM?
André Rodrigues - Eu já tinha feito um trabalho gráfico para a escola, a logomarca do Carnaval anterior. E com isso passei a conhecer. Quando eu fui chamado para fazer o Carnaval, já estava muito certo do que poderia funcionar. Existe uma coisa muito na Mooca que é muito legal: antes de ser carnavalesco, eu queria participar de qualquer maneira porque é uma escola muito nova. São pessoas que têm possibilidade de dar uma cara nova ao Carnaval. Isso é primordial. Que ela não se prenda a modelos de Carnaval e consiga criar seu próprio modelo. E não existe o grupo do "eu mando, eu decido, eu sei o que fazer". Cada um dentro do seu espaço consegue trabalhar livremente e ao mesmo tempo todos os setores se conversam. E essa coisa de não estar preso a modelo é maravilhoso. Nós fizemos um Carnaval esse último ano em que entramos para ganhar. Porque a gente se preparou para ganhar. A gente estudou demais os pontos de balizamento de julgamento. Não foi surpresa vencer o Carnaval, mas ao mesmo tempo fica o receio de ter uma outra forte candidata junto. Então até o momento final fica aquela coisa do será que vai, será que não vai.

Liga SP - E o título saiu somente na última nota. Lembra o que passava na cabeça naquela hora?
André Rodrigues - Eu vou ser muito sincero: não assisti à apuração. Eu só soube depois do resultado. Não estava no Anhembi. Eu sei que foi muito difícil para os componentes chegar até essa última nota. Mas eu tenho certeza também que eles acreditavam nessa última nota. Porque todos os setores se prepararam. A última nota foi comissão de frente e eles ensaiaram exaustivamente. O coreógrafo é um cara que sabe tudo que tem que fazer na avenida. Então, se eu tivesse assistido à apuração, também teria certeza que poderia vir a nota. Poderia ser um empate e a gente poderia ter perdido no desempate em outros quesitos. Mas, no sentido de acreditar e ter fé, com certeza eu teria fé que iríamos ganhar.

Liga SP - Curioso é que no ensaio técnico de vocês choveu muito e no desfile também.
André Rodrigues - É legal isso porque parece que tudo foi uma grande preparação. Em todos os ensaios da escola chovia. Ensaios de comissão de frente, em quase todos choveu. No nosso ensaio técnico os rádios pararam de funcionar. A mesma coisa aconteceu no desfile. Para mim, crendices à parte, foi tudo um grande ensaio para que a escola fizesse um desfile sob aquelas condições. Você tem uma escola que se prepara para vencer e ela tem uma adversidade no dia do desfile e consegue vencer essa adversidade a mais, é glorioso, espetacular! É uma escola preparada para desfilar um Grupo acima. O meu maior medo era esse. De repente subir e a escola não entender tudo o que ela passou no Grupo de baixo. A escola foi vice-campeã no outro ano e talvez tenha sido melhor. Porque se subisse talvez não estivesse preparada para fazer um Grupo de Acesso. Ela enfrentou uma adversidade a mais nesse Grupo base para de repente estar mais encorpada para o Grupo de Acesso. Hoje talvez esteja mais preparada pra um desfile maior, para um desfile onde as pessoas não consigam se comunicar, com chuva.

Liga SP - A MUM agora vai pegar escolas como Nenê de Vila Matilde e Camisa Verde e Branco, por exemplo. Em que momento cai a ficha do desafio?
André Rodrigues - Já caiu a partir do momento que a gente escolheu nosso enredo para o ano que vem. Acho que disputar com essas grandes escolas, para uma escola que nunca esteve no Grupo de Acesso, é uma honra. Antes de tudo, deve-se prevalecer a hombridade da disputa, e você disputar com escolas mais experientes e com grande relevância no Carnaval de São Paulo, antes de tudo é uma honra. A Mooca, antes de pensar em vencer, tem que pensar na honra de desfilar. Acho que isso é o mais importante. Isso é um mote do nosso enredo, é um mote da nossa filosofia de trabalho para o ano seguinte. A gente não pode subestimar as outras escolas, até porque ninguém conhece a Mooca desfilando no Grupo de Acesso. Ao mesmo tempo, a Mooca não pode subjulgar grandes escolas. Então acho que antes de tudo tem que prevalecer o respeito e a honra de poder disputar com essas escolas de samba por uma questão histórica.

 

Liga SP - E o que pode adiantar do enredo do Carnaval 2019?
André Rodrigues - O enredo é emocionante. É reflexivo e ao mesmo tempo com um cunho político voltado à cultura. É muito importante a gente resgatar e nos preservar como escola de samba. Nosso enredo caminha muito para isso. Como Plínio Marcos diz, nenhum povo é livre sem antes conhecer seu passado e sua cultura. Eu falo muito, e isso é importante, que hoje tenho um papel como carnavalesco e como uma única pessoa que fala por duas mil dentro de uma escola de samba. Não tenho a liberdade de fazer um enredo banal. A gente passa por um momento no país, independente de questões políticas, de resignificação. A gente tem que aprender a ressignificar a nossa cultura e nos ressignificarmos como povo. É quase como um movimento antropofágico. Hoje a gente vive muito o que é o ideal lá de fora, mas o que é nosso e o que a gente produz tem que ser tão preservado e admirado quanto. E o papel da escola de samba é esse. O papel da escola de samba é ensinar, trazer cultura pras pessoas. Hoje na Mooca meu papel é esse. É uma escola nova, que me dá liberdade pra isso, que tem espaço pra isso, que está encontrando sua forma de fazer Carnaval. Hoje eu preciso dar pra duas mil pessoas que participam da escola que tenham orgulho do enredo delas e que tenham prazer em dizer o que é o enredo delas.

Liga SP - Será um enredo que reforce nossas origens culturais?
André Rodrigues - Como escola de samba. É quase um movimento antropofágico mesmo. Nós temos que nos devorar e nos entender culturalmente para que a gente continue fazendo cultura. A gente tem que se entender como escola de samba para que a gente continue fazendo Carnaval.

Liga SP - Quais os desafios de sair do Acesso 2 e montar um desfile maior no Grupo de Acesso?
André Rodrigues - O maior desafio é a gente conseguir se organizar. Porque não tem mistério: nós temos que fazer um Carnaval que seja suficiente e que a gente consiga abraçar. A gente não pode fazer uma coisa maior do que a gente pode abraçar, temos que fazer um Carnaval dentro da nossa realidade, mas ao mesmo tempo consciente do que é campeonato, permanência e descenso. Isso só vai depender da nossa própria organização. Não vai ser nenhum adversário que vai acabar com isso, porque a nota 10 vai vir se a gente se preparar bem pra isso. O julgamento do Carnaval hoje premia a escola que erra menos e se a gente conseguir se organizar o suficiente pra não errar, as notas vão vir. O Carnaval do ano passado venceu as adversidades de estrutura de escola do Grupo de Acesso 2. O barracão era longe, o ateliê foi difícil, nós tivemos algumas dificuldades com fantasias que não esperávamos... Tudo isso é vitoria de adversidades de estrutura que foram vencidas com organização. Não existe maior adversário que a falta de organização.

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