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DIAS PARA O CARNAVAL!

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Babu Energia: um baiano que não abre mão do Carnaval de São Paulo

Carnavalesco da Morro da Casa Verde se identifica com a capital paulista e declara, que deve muitas de suas conquistas a terra da garoa

19/12/2018 Redação Liga SP - Foto: babu energia 01

Com 20 anos dedicados ao Carnaval de São Paulo, Babu Energia é uma daquelas pessoas que acredita que com trabalho duro e honesto tudo é possível. Nascido em Feira de Santana, na Bahia, e com 50 anos de muito swing, ele vem de uma família simples, caçula de oito irmãos, onde a possibilidade de viver de arte era remota, mas que com muita persistência ele percebeu que poderia ser real.

Com apenas 10 anos, Babu, que morando em uma área rural de sua cidade natal já copiava os desenhos de Clovis Bornay e criava os seus próprios desfiles de Carnaval, com muita pompa e circunstância. “Eu construía a passarela do samba com pó de serra no fundo de nossa casa, e tudo que eu via na TV, eu reproduzia. Tinha a mania de chamar toda a vizinhança para assistir os meus luxuosos desfiles, eu mesmo colocava as fantasias e apresentava... na passarela do samba escola tal escola, tal alegoria, tal fantasia. Era engraçado, foi uma infância feliz, mas que contou com pouco apoio dos meus pais, que com pouca instrução não apoiavam as minhas escolhas”, relembra.

Órfão de pai aos 13 anos, a mãe de Babu assumiu inteiramente as responsabilidades da casa e passou a fazer um pouco de tudo para sustentar os filhos. “Meu pai faleceu em uma noite de Carnaval, estávamos assistindo o concurso de fantasia do Hotel Gloria pela TV, e isso foi um outro fato de que marcou muito a minha infância, o que me fez começar a mentalizar ainda o sonho de desbravar o mundo. Confiante no meu talento, aos 18 anos, eu fui servir o exército brasileiro, migrei para Salvador e na sequência para o Rio de Janeiro, onde o meu irmão mais velho já morava, aí tudo começou a ganhar uma nova dimensão”, se recorda.

Quando chegou no Rio de Janeiro, com 21 anos, o artista logo viu sua criatividade despontar, e em alguns anos de trabalho na capital fluminense conheceu pessoas influentes e que posteriormente lhe fizeram arrumar as malas para São Paulo. “Meu primeiro trabalho foi na Estácio de Sá, lá aperfeiçoei uma técnica que era pouco explorada, a esculturas em espuma, o trabalho cresceu e com ele conheci pessoas incríveis que me abriram portas tanto no Rio de Janeiro por onde permaneci por 10 anos, quanto em São Paulo. No Rio, tive passagens também pela Caprichosos de Pilares e Império Serrano, e aqui trabalhei na Acadêmicos do Tatuapé, Acadêmicos do Tucuruvi, Barroca Zona Sul, Imperatriz da Pauliceia, Leandro de Itaquera, Prova de Fogo, Morro da Casa Verde, Nenê de Vila Matilde, Dom Bosco e Uirapuru da Mooca. Jerônimo Guimarães, Milton Cunha e Roberto Szaniecki foram as pessoas que mais me estenderam a mão durante esses anos”, enaltece.

Tendo o seu nome registrado em todos os Grupos que envolvem o Carnaval de São Paulo, Babu, reforça que a grande diferença entre eles está na verba que é destinada. “Para se fazer um bom trabalho, seja no Grupo Especial, no Acesso 1 ou 2, e até mesmo na UESP é preciso saber administrar muito bem o dinheiro. O segredo está na questão administrativa, hoje estou no Grupo de Acesso 2, e se você me perguntar se é um grupo difícil eu vou de responder, extremamente competitivo. Infelizmente a verba não é compatível com o desfile que exigem da gente, mas é nesse momento que o talento do Carnavalesco se sobressai, eu sempre alinho a criação ao planejamento de custo”, reitera.

Baseado no momento em que vivemos onde reduzir custos é o lema de dez entre dez brasileiros, o Carnavalesco desenvolveu uma técnica que vem se aprimorando ano a ano, a ideia é construir a estrutura das fantasias com a ajuda de mangueiras, canos de PVC. “Eu comecei lá na Dom Bosco há exatos dois anos atrás, aperfeiçoei na Uirapuru da Mooca e avancei muito agora no Morro da Casa Verde. Com as mangueiras cada estrutura de fantasia sai a 80 centavos, se fosse feita da forma convencional com o arame seria 25 reais por componente, reduzi em quase 90% o orçamento da escola”, comemora o profissional.

Apaixonado por São Paulo desde os primeiros dias que aqui se instalou aqui, Babu afirma que hoje a sua principal dificuldade e deixar essa cidade. “Eu imaginava que aqui em São Paulo só se comia macarrão e trabalhava, que era uma cidade fria, sem calor humano. Porém eu descobri uma cidade que me fez crescer profissionalmente, me deu uma instabilidade financeira, e foi exatamente onde eu me encontrei. Hoje São Paulo é minha cidade, a cidade que me escolheu e que eu escolhi para viver. Não digo que não voltaria para Bahia, para o seio da minha família, esse dia vai chegar, mas espero que demore”, completa.

Quando questionado sobre as diferenças entre o Carnaval do Rio de Janeiro e de São Paulo, o artista e convicto em afirmar que são dois Oceanos completamente diferentes. “Fiquei no Rio por quase 10 anos, estou aqui a 20, o Carnaval do Rio, é um Carnaval de muita vaidade e competição, já São Paulo, na minha visão tem um Carnaval pacato, muito mais glamoroso, humano e disponível para quem deseja começar e criar coisas diferentes. Costumo dizer que “vim, venci e fiquei”; tenho muito orgulho de participar dessa grande festa e ter um capitulo nessa história”, argumenta.

Desenvolvendo o enredo autoral “Não julgue para não ser julgado, os humilhados serão exaltados” o Carnavalesco ressalta que o primeiro passo para colocar esse projeto na passarela do samba foi o custo benefício, que segundo ele pode lhe trazer resultados surpreender. “O enredo é um fio de esperança, um verdadeiro balsamo para toda a comunidade, por se tratar de uma passagem bíblica. Nosso desfile vai defender o negro, o favelado, a criança, a mulher, o homossexual, enfim, minha ideia é trazer uma estética diferenciada, mostrando que no momento da dor e de fragilidade é que conhecemos realmente quem são nossos verdadeiros amigos”, complementa.

Um dos desejos que permanecem adormecidos no coração de Babu é um título no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo. “Eu acho que ainda falta um trabalho campeão no Grupo Especial, eu ainda anseio esse momento, é um dos meus maiores sonhos. Apesar da casa própria e da estabilidade financeira, eu ainda penso muito na coroação desses quase 30 anos dedicados a arte do Carnaval. Eu me considero uma pessoa feliz, mas, essa felicidade pode ter uma cereja a mais nesse bolo”, afirma.

Finalizando esse bate papo exclusivo com a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, o Carnavalesco Arisvaldo Oliveira Soares, ou melhor, Babu Energia nos esclarece, o porquê desse apelido. “Eu me lembro que eu tinha uns 25 anos, e muita gente dizia que eu tinha energia de sobra, que eu era ligado no 220, e aí pego, Energia. E Babu era um apelido que eu tinha na época que eu trabalhei no circo, juntou, e ficou Babu Energia. Eu me sinto Babu, é um nome que me trouxe muita sorte. Eu mesmo com 50 anos, subo em carro, desço, me preocupo com adereço, fantasia, carro, pasta, ou seja, a vitalidade está aqui viva dentro de mim e eu quero seguir assim”, finaliza!