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DIAS PARA O CARNAVAL!

Marcelo Messina/LigaSP

Com "Okê Arô", Barroca prepara "flecha certeira" para tentar Grupo Especial

Diretor de Carnaval, Marcos Paulo analisa resultado do Carnaval 2018 e como escola vem se organizando para desafio de 2019

01/06/2018 Redação Liga SP - Foto: Marcelo Messina/LigaSP

De surpresa do Carnaval 2018 a realidade em 2019. Este é o objetivo da Barroca Zona Sul. Após o terceiro lugar no Grupo de Acesso desse ano, a escola vem se reorganizando para buscar o Grupo Especial.

Para isso, a agremiação verde e rosa promoveu importante mudança estrutural. Sai um carnavalesco e entra um quarteto na chamada comissão artística. Uma divisão de responsabilidades, como definiu o diretor de Carnaval Marcos Paulo.

Em conversa com a Liga SP, o profissional fez uma avaliação do desempenho da Barroca em 2018, contou o segredo para ter uma comunidade forte e explicou como irá apresentar na avenida o enredo "Okê Arô", uma saudação a Oxóssi, padroeiro da escola:

Liga SP - Como foi desenvolver o trabalho para o Carnaval 2018 e como encararam o resultado?
Marcos Paulo - Assim que subiu do antigo Grupo 1, a gente teve a preocupação de primeiro avaliar o que estava sendo julgado no Grupo de Acesso e tentar fazer um desfile mais próximo da perfeição sabendo das nossas carências. Abrir Carnaval não é fácil e durante muito tempo quem vinha abrindo estava tomando pancada. Então a gente pensou em estruturar o desfile em um enredo fácil, com uma leitura fácil, com um samba forte e trabalhando quesito por quesito. Tanto que, no resultado final, de nove quesitos em seis a gente teve nota máxima. Até metade da apuração a gente estava em primeiro e fica aquele gostinho de quase ter ido, mas Águia de Ouro e Colorado foram realmente superiores. A gente sabe dos nossos erros e as mudanças para 2019 vão ser em cima do que apanhou. Mas foi um Carnaval que a gente saiu realmente satisfeito, feliz por ter aberto, ter ficado em terceiro lugar e já ter colocado a comunidade em um pensamento avançado não de ficar, mas de querer ir embora para o Especial. Que é isso o que a gente quer buscar para 2019.

Liga SP - Havia a impressão de fora, principalmente por essa dificuldade que é abrir o Carnaval, que a missão principal era não cair. Foi durante a apuração que foi crescendo o pensamento que dava para subir?
Marcos Paulo - Acho que o Carnaval inteiro, pelo histórico, pensava que a Barroca não ia aguentar muito o Grupo de Acesso. Até pelas escolas excelentes que tem no Grupo. Mas aqui dentro a gente tinha a certeza do trabalho que estava sendo realizado. Com barracão praticamente pronto no final do ano, com fantasia pronta, os ensaios fortes aqui dentro. A gente sabia do nosso potencial. O presidente usou muito esse slogan "eu acredito" e isso contagiou. A Barroca não é diferente de nenhuma outra entidade. O ponto principal foi organização. A gente cumpriu metas e datas. Tivemos problemas, sim, mas foi o suficiente para ficar no Grupo e já almejar algo maior agora.

Liga SP - Nos ensaios técnicos e na apresentação de dezembro na Fábrica do Samba, o "chão" de vocês já se mostrou bastante forte.
Marcos Paulo - Veio, né. Há quatro anos, mesmo estando em grupo menor, a gente vem mantendo muito nossas alas e chefes de alas. É um povo que já estava vindo com a escola. A gente saiu de 800 componentes para pouco mais de mil, então não é uma diferença tão grande e conseguimos manter um trabalho que já estava sendo feito, algumas estratégias de desfile para andamento e posicionamento da escola. Tudo muito estudado. Antes era "ah, vamos desfilar". Hoje a gente tem um planejamento de desfile muito grande e isso passou para o componente. Essa é a diferença. Não sou só eu e minha comissão de Carnaval que temos que saber do regulamento. A gente fez palestras e eu parava ensaios para passar isso para eles. Passamos a responsabilidade para todo mundo fazer parte do jogo. E o resultado acabou vindo.

Liga SP - Virando a página para 2019, certamente com a Barroca sonhando mais alto. Houve uma mudança significativa, saiu um carnavalesco e entrou um quarteto na comissão. Quais foram os pontos que vocês observaram para fazer diferente?
Marcos Paulo - Quando termina o Carnaval, você avalia. Há situações que durante o ano conversa com os departamentos responsáveis. Você identifica os problemas, mas você é um só. Então tem que ter uma diretoria, uma comissão para poder agir nos setores. E, infelizmente, onde a gente perdeu ponto foi onde mais cobrou. A gente vinha alertando nossa comissão artística antiga dos problemas que havia de finalização de carro, decoração. Nas fantasias, a mesma coisa. Eu fico muito à frente da questão de fantasia, mas entrego ela para 1200 componentes. Não tem como eu controlar. Eram situações que a gente alertou, então não foi só pelo resultado. "Ah, não trouxe nota, então vamos dispensar". Não foi isso. Foi justamente em ver que uma pessoa só não consegue abraçar o trabalho todo. A gente identificou isso aí, não só na questão da comissão artística, mas também da minha parte de harmonia, que eu perdi ponto e estava na mão de uma pessoa. Isso fica muito complicado. Então a gente transformou em comissão para ter mais braços e trabalhar melhor.

Liga SP - Como será dividido o trabalho dentro dessa comissão de Carnaval?
Marcos Paulo - Hoje eu tenho o Thiago Morganti, que é um enredista. A ideia original do enredo de 2019 é minha, mas ele fez toda a pesquisa. O Yuri Aguiar é um projetista que mora no Rio de Janeiro. Ele vai fazer projeto de alegoria, de material, de fantasia, ajudar na pasta que vai para o jurado. Tem o Rogério Sapo, que é um diretor de fantasia dentro dessa comissão artística. É uma pessoa que já era contratada da escola e ajudou muito a buscar material, trazer a fantasia. E o Fernando Dias, que é o único que é carnavalesco de origem, para me ajudar no protótipo e acertar os problemas que eu tenho no barracão de meta, de serviço, de terminar peça com excelência, verificar carro. Tudo para que chegue mais pronto para não ter as perdas de pontos infantis que a gente teve.

Liga SP - Um acerto grande foi o Pixulé?
Marcos Paulo - Foi. Toda escola tem que ter uma identificação de voz. A gente passou por alguns problemas nos últimos seis anos com seis cantores diferentes. O Rodrigo Xará, antigo intérprete, trouxe muito essa identificação e na verdade a gente queria agregar mais, trazer essa potência maior. Porque era abertura de Carnaval, eu tinha que trazer tudo na excelência. E o Pixulé é um intérprete que se sobressai pela experiência. O trabalho que ele fez em quadra foi também de diretor de harmonia.

Liga SP - Como surgiu o enredo "Okê Arô"?
Marcos Paulo - Quando terminou o Carnaval eu já tinha pensado nesse enredo, tanto que a gente correu para recolher algumas coisas que seriam importantes. "Okê Arô" é uma saudação ao orixá Oxóssi e significa "salve o grande caçador", que é o padroeiro da escola. E nunca foi homenageado em nenhum enredo da Barroca. A madrinha da escola é Mangueira e a gente herdou as cores, verde e rosa, e o padroeiro. O verde e rosa está constantemente exaltado, mas o padroeiro, não. Lógico que eu esperei muito o resultado desse Carnaval e o terceiro lugar mostrou que esse é o caminho que a gente tem para seguir. E a história de Oxóssi se mistura muito com a história da Barroca. Que é a questão da luta, de ir atrás do que quer, e na nossa cabeça é isso. É escola de uma flecha só e nossa flecha está mirando o Grupo Especial. A ideia é não só homenagear o orixá e quem participou da vida dele, mas também o legado que ele deixou. É um orixá que há 6 mil anos se preocupava com sustentabilidade e harmonia da família. Eu falo de toda a história, do legado, do sincretismo, porque Oxóssi é São Sebastião, e termino o desfile da Mangueira. O que seria do verde sem o rosa? Eu faço essa mescla justamente para cair na Mangueira, de quem herdamos as cores. É como se fosse uma recoroação do nosso padroeiro. É um desfile que eu tenho certeza que vai ser um dos mais emocionantes da escola. É uma mistura do que eu gosto: afro, cultural e religioso, que vai deixar um legado muito grande, assim como foi o último Carnaval. O importante é deixar um legado, um ensinamento para as pessoas e acho que esse enredo vai trazer isso e levar a gente ao que a gente espera, que é o Grupo Especial.

Liga SP - Apesar desse contexto todo e a relação de Oxóssi com a escola, não fica o receio de quem olha de fora pensar que é só mais um enredo afro?
Marcos Paulo - No começo a gente chegou a discutir, mas, quando você fala da parte cultural e religiosa, ainda mais que tem dentro do nosso enredo a questão do aprendizado, nunca é demais. Nunca é demais você expor ideias que venham ajudar na educação e na cultura das pessoas. Eu ouvi isso três anos atrás quando a Santa Cruz, lá no Rio de Janeiro, falou de natureza e sustentabilidade. Perguntaram para o carnavalesco "de novo?" e ele falou "nunca é demais porque as pessoas não aprenderam". Então eu acho que nunca é demais expor uma história dessa que se tem um legado tão importante, principalmente para quem é do Carnaval e para quem é da nossa escola. Esse receio é zero.

Liga SP - Como está a programação com relação a samba de enredo?
Marcos Paulo - Nesse ano não vai ter eliminatória de samba. Não por receio de não chegar a uma obra que a gente não esperasse, mas é um enredo muito particular. E aqui o samba tem que ser uma poesia, é um enredo que tem as palavras certas. Eu poderia explanar isso para as pessoas, mas dar essa oportunidade aos compositores e a gente depois ficar consertando é ruim. Outro fator determinante para isso, mas não exclusivo, é a questão da quadra. A gente está indo para outro espaço e para fazer audição e eliminatória eu preciso da quadra. Resolvemos fazer algo fechado que atendesse às expectativas da escola com pessoas que já fazem parte da ala de compositores, pessoas que estão junto com a gente e nossa ala musical.

Liga SP - Para fechar, o quanto a mudança de quadra interfere para a comunidade?
Marcos Paulo - Eu acho que o que pega, hoje, é mais a questão emocional do que a física. Porque o outro espaço vai estar adaptado para ensaios e festas dentro de três a quatro meses, que é o período que a quadra fica ociosa. Não vai pegar o período crítico. A gente fala em pessoas da comunidade, mas tem pessoas lá em cima que precisavam descer, agora quem está aqui embaixo vai ter que subir. Fica mais a questão de sentimento, nosso presidente nasceu aqui e nosso presidente de honra tem isso aqui como a casa dele. Fica esse sentimento de perda. Mas, para a comunidade, que acabou sendo renovada, não vai atrapalhar.

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