Divulgação - Liga SP

Cristiano Bara: um sonho de criança que se tornou realidade

Desenvolvendo o enredo da Unidos de Vila Maria ao lado de Alexandre Louzada, o artista se identificou com a profissão desde os primeiros anos de vida

26/02/2019 Redação Liga SP - Foto: Divulgação - Liga SP

Quem disse que sonho de criança não pode se tornar realidade, ainda mais se essa criança confia em seu potencial e tem o apoio da família, assim podemos dar início ao retrato pessoal de Cristiano Bara, que aos 10 anos, dentro de casa se descobriu um artista, apaixonou-se pelo Carnaval e passou a fazer planos de como aquelas imagens da TV poderiam fazer parte de sua rotina, sim, o amor pelo Carnaval surgiu assistindo os desfiles em casa.

Filho de uma costureira, Cris, como é chamado pelos amigos brincava exaustivamente de ser carnavalesco, ainda sem entender muito bem onde tudo iria parar ele começou construindo os seus próprios carros alegóricos, suas fantasias e montando o seu desfile oficial. “Eu via tudo pela TV e queria copiar, pegava os meus carrinhos e desmontava inteirinho, e depois ia reconstruindo da forma como tinha que ser uma alegoria, usava as embalagens de leite para formar a base dos queijos, as bonecas da minha irmã eram os destaques e com os meus soldadinhos eu montava as alas. Os retalhos de costura da minha mãe serviam para confeccionar as fantasias. Meu maior prazer era ficar observando pelas frestas dos barracões o trabalho das pessoas, escondido, claro”, relembra.

Nascido no Rio de Janeiro, aos 12 anos, Cristiano muda-se para Salvador, mas com a certeza de que algo lhe traria muito em breve para sua cidade natal novamente, e não é que ele estava certo. “Com 15 anos, uma amiga da família nos chamou para uma festa de Natal, e fizemos um amigo secreto, a cunhada dessa amiga me tirou e me presenteou com uma fantasia da União da Ilha para o Carnaval seguinte e sabendo da minha paixão me convidou para auxiliar em alguns bordados de paetê, acredite, eu ficava na praia sentado bordando, em uma semana eu fiz mais de mil e ela se animou e me convidou para ajudar no barracão, como eu estava em férias escolares, topei, isso foi em 1989, e essa rotina se estendeu até 1996, idas e vindas Rio, Salvador, férias e trabalhos temporários no barracão da Ilha, era um sonho de princesa”, recorda.

No Carnaval de 1997, Cristiano, já estava morando em definitivo no Rio, e trabalhando como bancário, com isso as visitas nos barracões se tornavam cada vez mais frequentes. “O enredo era "Cidade Maravilhosa, o sonho de Pereira Passos", e quem desenvolveu foi o Roberto Szaniecki. Como eu continuava muito fascinado, me propôs a seguir ajudando de forma voluntária no barracão a noite, sempre depois do trabalho. Com problema em várias alas e até na comissão de frente, o desespero da escola e o meu só aumentavam, foi quando na reta final, meu trabalho se multiplicou, e isso foi visto pelo presidente, Jorge Taufie Gazelle, ou simplesmente, Peixinho. Eu sempre desfilava na Ala da Gandaia, a mais barata, fazia emprestimo para comprar a minha fantasia, reconhecendo todo meu esforço, o presidente me deu uma fantasia muito mais imponente cheia de plumas e umas cinco vezes mais cara do que a que eu tinha adquirido, me lembro, era na Ala da Arquitetura, for isso ainda me contemplou com um bolinho de dinheiro que eu mesmo negando ele insistiu, na época era mais de quatro mil reais, uma grana alta, e ele disse, você trabalhou mais que muitos contratados aqui”, se emociona.

Assumindo efetivamente a assistência de um Carnaval ao lado de Milton Cunha no ano seguinte desenvolvem juntos "Fatumbi - A ilha de todos os santos" e na sequência "Barbosa Lima, 101 anos do sobrinho do Brasil", um fato marcou esses dois anos ao lado do Milton. “No ano de Pierre Verger eu li muito sobre o tema, e descobri que havia muita ligação com o misticismo e alertei o Milton, ele não deu muita bola, no ano seguinte ele reaproveitou algumas esculturas que usam roupas pretas e para a Academia Brasileira de Letra, não combinava, o verde era bem fechado, mas não preto, fora as oferendas que eram colocadas no pé desse carro, pensei isso vai dar ruim. De namorado novo ele me tirou da assistência para colocar o novo affer, coisa que durou pouco tempo, logo eles brigaram e ele me devolveu a assistência, mas confesso que fiquei bem desolado naquele período, não era mais a mesma coisa. E eu reclamei muito dizendo que eu queria fazer o Carnaval por inteiro e não pela metade, ou em pedaços como o projeto estava se desenrolando, e me lembro como se fosse hoje, o falecido Seu Luís, chefe do barracão me disse, calma, cuidado com suas palavras, elas tem poder. Em minutos o barracão estava em chamas, perdemos tudo, faltando 28 dias para o desfile. No outro dia o Milton me deu o barracão para cuidar e o Seu Luís olhou bem para mim e disse, está vendo como as palavras tem poder, você não queria o Carnaval no ferro, está aí, um Carnaval inteirinho para você fazer”, lamenta.

Depois dessa passagem traumática, o artista resolve dar um tempo de Carnaval e por intermédio de uma amiga acabou montando um atelier em Zurique, na Suíça. “Eu literalmente quis sair de circulação, fiquei por lá um ano e só voltei para desfilar como componente na própria Ilha, o que me fez voltar em definitivo para o Brasil, fiz Alegria Zona Sul e Inocentes de Belford Roxo, e em 2010, eu assinei o primeiro Carnaval, ao lado do Roberto Szaniecki, porém, no meio do projeto ele desistiu eu eu assumi, algo que já estava bem encaminhado, mas que precisava de ajustes. Em 2011, fizemos Mamonas, ai sim, o primeiro enredo solo que desenvolvi, me frustrei e entrei em depressão, a pessoa que mais me ajudou nesse período foi o Fran Sérgio, atual Carnavalesco da Águia de Ouro, ao lado do Laila”, afirma.

Desolado e sem saber que rumo seguir a proposta do amigo Fran Sérgio de seguir com ele para a Beija-Flor seria bem tentadora, se não fosse a preocupação de trabalhar ao lado de Laila, mas acabou aceitando. “Confesso que tinha bastante medo dele, ainda mais porque logo na minha chegada já foi dizendo que eu não renderia nada, que era magro e franzino. Meu primeiro teste foi na compra de materiais, todas as vezes que os funcionarios saiam para comprar mercadorias tinha algo que o desagradava, eu por incrivel que pareça, fui elogiado. Na sequência, ele pediu que eu decorasse uma alegoria, todos brincaram “ele vai te gongar”, porém, ele respondeu “bom pra caralho”, só faltou um detalhe que eu vou te ensinar, sempre que você faz um desenho muito escuro precisa fazer um contorno claro, e vice versa, jamais esquecerei dessa dica preciosa. Detalhe, eu entrei na Beija-Flor ganhando um salário de porteiro, e foi o Laila que desceu ate a administração e brigou para que aumentassem o meu salário, e ele conseguiu”, comenta.

Em 2017, Cristiano Bara, integra a Comissão de carnaval da Beija Flor e passar a ser o décimo segundo homem a desenvolver o projeto da escola ao lado de Laíla, Fran Sérgio, Ubiratan Silva, André Cezari, Bianca Behrends, Rodrigo Pacheco, Wladimir Morellembaum, Brendo Vieira, Gabriel Mello, Adriane Lins e Léo Mídia, porém, essa parceria durou apenas um ano e a vontade de trilhar por novos caminhos surgiu mais uma vez. “Um amigo me indicou a Unidos de Vila Maria, eu pesquisei, dei uma olhada nos projetos que eram sempre cumpridos pela escola, depois percebi o desejo da agremiação em ganhar o primeiro título e isso me vez ver o quanto poderia somar ao meu curriculo. Conversamos eu e Fran Sérgio com o presidente em uma passagem dele pelo Rio, e em poucos dias acertamos para o Carnaval 2018, e desenvolvemos o enredo “Aproveitam-se de minha nobreza, você não soube, não te contaram? Suspeitei desde o princípio! Não contavam com minha astúcia! Arriba Bolaños, Arriba Vila, Arriba México”, a Comissão era composta por mim e pelo Fran”, conclui.

Passando por momentos de muita aflição dentro do Carnaval, Cristiano declara que por muitas vezes ele pensou em desistir. “Eu me cobro demais, e se você perceber as dificuldades são sempre ao extremo, o incendio, um Carnaval mal projetado que acaba afetando o desenvolvimento e a culpa sempre cai sobre o carnavalesco, o problema na saia da porta bandeira, que sinceramente até hoje eu não sei como foi acontecer. Eu não aceito nada fora do lugar, eu sou pleno naquilo que estou fazendo, felizmente ou infelizmente eu só consigo ser assim, não consigo gostar mais ou menos, ou o trabalho está muito bom ou ele está uma droga. Precisamos andar sempre na legalidade, tentando sempre ser correto com todos, essa é a minha filosofia de vida, se eu fizer o bem eu vou colher o bem”, argumenta.

Tendo a primeira experiencia com o premiado Carnavalesco Alexandre Louzada, Cristiano brinca. “Eu sou a Eletrolux e ele é a Brastemp, conheci ele quando criança e sei o quanto ele é importante para o Carnaval brasileiro, reconhecido e comprometido. Eu não tomo nenhuma decisão sem antes falar com ele, mas ele está sempre disponivel, aceita as minhas sugestões e realmente quer ver o projeto crescer”, complementa.

Explicando de forma simples, Cristiano Bara, descreve o que vamos ver na passarela do samba em 2019 com “Nas asas do grande pássaro o voo da Vila Maria ao império do sol”, o enredo da Vila Maria. “Com desenhos do Alexandre e a minha execução, vamos mostrar como foi a criação do Peru, a sua agricultura, os sabores da selva, o caminho das religiosidades, as suas festas, os diplomatas que unem os dois países, e vamos fechar o Carnaval com uma grande alegoria que trará 80 crianças, que são o futuro das duas nações, como diz o nosso samba “uma só voz no mesmo ninho”, vamos dar muito valores as mulheres, detalhes as mulheres peruanas. Esse trabalho está sendo feito em conjunto, estamos com uma sintonia muito boa, aqui um completa o outro”, descreve.

Para finalizar esse bate papo exclusivo com a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, Cristiano Bara, hoje com 47 anos, declara que não imagina sua vida sem o Carnaval, afinal, ele se alimenta da arte e para o artista tanto faz estar aqui em São Paulo, no Rio, ou em qualquer outro lugar do Brasil . “Hoje eu dedico quase que 100% da minha vida ao Carnaval, eu amo o essa festa popular, é uma forma de mostrar o que o povo brasileiro tem de melhor. É um espetáculo que tem a nossa identidade, que mostra para o mundo o que a gente tem de melhor”, finaliza.