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Estradas nordestinas e cariocas se cruzam no Carnaval de São Paulo

Atuais Carnavalescos da Vai-Vai, Roberto Monteiros e Hernane Siqueira possuem experiências impares em suas carreiras

22/02/2019 Redação Liga SP - Foto: Liga SP

No passado, o filho já crescia sabendo que seguiria a profissão do pai ou da mãe, no caso de Roberto Monteiros e Hernane Siqueira não foi bem assim. A família de ambos não tinha nenhum envolvimento com o Carnaval, mas o bichinho da arte acabou de alguma maneira picando os atuais Carnavalescos da Vai-Vai, que a mais de duas décadas aprimoram seus conhecimentos e vivem do seguimento.

Nascido em Pernambuco e criado em São Paulo, Hermane Siqueira teve o seu primeiro contato com o Carnaval aos 8 anos, em uma viagem de férias para sua terra natal. “Eu fui para Olinda na intenção de ver os blocos de Carnaval, mas como nasci com uma deficiência no pé, e usava uma bota de ferro, não gostava de multidão então pedi para não me levarem, fiquei em casa e pela TV eu tive a chance de ver a Mocidade Independente de Padre Miguel, foi amor à primeira vista, uma identificação imediata, desde então comecei a colecionar revistas de Carnaval, e fazer muitas pesquisas em sebos, o que foi me trazendo muito conhecimento”, relembra Hernani.

Carioca de São Fidélis, região noroeste do Rio de Janeiro, Roberto sempre teve uma aproximação com os desenhos, apesar de só conhecer luz elétrica aos 7 anos. Sem formação acadêmica e considerando o artista um estado de alma e de condição humana, ele descreve como se descobriu um homem da arte. “Eu desenho para escolas de samba há 26 anos, a minha conexão é bem atípica com o Carnaval, eu sempre tive uma relação muito estreita com as artes plásticas, com o desenho e com a tatuagem, mas em 1998, eu iniciei um projeto na Viradouro com Joãosinho Trinta e isso perdurou por oito anos. Ainda trabalhei na Grande Rio e na Mocidade Independente de Padre Miguel, sempre desenhando”, comenta.

Tomando por uma paixão inexplicável pela Estação Primeira de Mangueira, com a chegada das férias, Hernane decide ir para a casa de um tio que morava em Petrópolis, mas não tinha ônibus direto e o artista foi obrigada a desembarcar no Rio de Janeiro, e por ironia do destino ele conheceu Viriato Ferreira. “Quando eu desembarquei na Rodoviária velha de São Cristovão e comecei a ver a montagem dos carros alegóricos, e fiquei enlouquecendo. E nesse bate papo informal com Viriato eu fui contando as minhas histórias, as minhas pesquisas e vendo os desenhos dele para a revista nova, até que teve um problema em uma das alegorias da Imperatriz, e eu metido fui ajudar, o sucesso foi tanto que virou o carro abre alas da escola na época, com apenas 17 anos, o meu nome começou a ficar conhecido, e foram surgindo vários convites de trabalho tanto no Rio de Janeiro quanto aqui em São Paulo”, recorda Hernani.

Tendo as palavras de Joãosinho Trinta como um mantra para sua vida, o atual Carnavalesco da Vai-Vai, compartilha da mesma opinião de seu mestre. “O João sempre dizia que o Carnaval é uma festa de comunicação imediata, e por ser popular nos permiti falar de todos os assuntos, mas reforçava que nunca poderíamos esquecer de um detalhe, as pessoas precisam se divertir, afinal, Carnaval é uma festa. Sem soberba e nem arrogância a minha intenção foi e sempre será fazer história dentro do seguimento, seria impossível não ter esse pensamento, eu convivi oito anos com o João e tantos outros nomes consagrados do mundo carnavalesco”, enfatiza Roberto Monteiros.

Seu primeiro trabalho em uma escola de samba de São Paulo aconteceu na Acadêmicos do Tucuruvi, e Hernane confessa, em meio a uma gargalhada que a escola só não desceu para o acesso por obra do destino. “Eu cheguei pelas mãos do Lisboa no Carnaval de São Paulo, hoje integrante do Departamento Cultural da Liga SP e me lembro que faltava uma semana para o Carnaval da Acadêmicos do Tucuruvi, e todas as alegorias estavam no ferro, desesperado, o filho do Seu Jamil, Fauze Abdo El Selam só repetia que a escola não tinha dinheiro. Eu em meio aquele pavor tive a ideia de forrar tudo de plástico preto e pintar, seguindo as orientações de algumas revistas que eu tinha no meu acervo, sendo assim, 70% do Carnaval da Tucuruvi em 1998, foi de plástico preto pintado, me lembro que na sequência vinha a Camisa Verde e Branco, imagine o nosso pavor, o bom foi que a escola ainda ficou em décimo lugar, desde então não parei mais, vieram muitas outras escolas e projetos incríveis... Império de Casa Verde, Unidos de São Lucas, Unidos de Vila Maria, Colorado do Brás, enfim, eu fui ajudando a subir de grupo e ficando conhecido no meio”, comemora.

Considerando o Carnaval como algo calcado na tradição, Roberto reforça que mesmo assim, ele está sempre em transformação. “O Carnaval é uma produção de arte popular, é uma competição que precisa de critério. Eu pode dizer que nessas quase três décadas trabalhando com o seguimento eu já vi enredos patrocinados, um período com enredos críticos e até as homenagens, o Carnaval está sempre em transformação”, argumenta.

Sempre trabalhando com situações adversas, o trabalho inesquecível na carreira de Hernane foi em 2005, com a Acadêmicos do Tatuapé, com o enredo “Pará, a Heróica história de nossa história, berço cultural de nosso povo”. “Foi um desfile memorável no Anhembi, até porque o barracão da escola, que era embaixo do viaduto da Penha pegou fogo semanas antes do desfile. Definitivamente eu sempre trabalhei com estruturas precárias, quando eu subi a Império de Casa Verde de grupo, a construção do meu Carnaval foi na garagem de um prédio, sem nenhuma regalia, mas por incrível que pareça funcionava”, lamenta.

Depois de abrir um atelier e dar uma pausa de cinco anos fora de São Paulo desenvolvendo projetos no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, Hernane Siqueira, retorna em 2016 para desenvolver o projeto 2017, na Unidos de Vila Maria, auxiliar o Carnavalesco Alexandre Louzada. “Eu sempre tive uma relação muito bacana com Ilha Bela, até por ter fundado muitas escolas de samba por lá, e auxiliar no projeto que iria contar a história da cidade, realmente foi tentador. E no Carnaval seguinte vim para a Vai-Vai, só para confeccionar uma alegoria e agora em 2019, estou aqui, na luta”, afirma.

Quando questionado sobre suas grandes fontes de inspiração dentro do Carnaval brasileiro, Roberto enumera grandes nomes com quem teve a chance de conviver e trabalhar. “O Joãosinho Tinta me fez entender que o Carnaval é uma instancia de brasilidade que tem dentro dela elementos de surrealismo com uma fantasia alargada. Já o Renato Lage me deu a parte técnica do designer e teórica. E o Alexandre Louzada me deu o glamour, enfim, cada um foi uma escola imensamente importante para a construção de quem eu sou hoje”, argumenta.

Dinâmico e extrovertido hoje, Hernane, não imagina mais a sua vida sem o Carnaval e assim como Roberto, agradece os grandes intelectuais que atravessaram o seu caminho ao longo de sua trajetória. “Eu sempre fui uma pessoa muito fervida, eu respiro escola de samba da hora que eu acordo até a hora que eu vou dormir. Apesar de ter um ciclo de amigos muito vasto eu acredito que a minha história de vida se confundi com a história do próprio Carnaval de São Paulo. Eu sou da época que não tínhamos verba, visibilidade e muito menos Fabrica do Samba com todo esse magnetismo. Eu tenho como mestre o Viriato, mas me identifico com a figura do Fernando Pinto”, rememora.

Para finalizar esse bate papo exclusivo com a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, nada melhor do que conhecer o que Roberto e Hermane preparam para o desfile da Vai-Vai. “O enredo “Vai-Vai: O Quilombo do Futuro” nasce da sonoridade dessa frase que é um caldo de informações para fazer a história através de um legado que ficou e pensando diretamente no futuro. Esse tema vem de encontro com a própria história da escola que caminha dos 89 para os 90 anos em um período em a gente briga para continuar o samba e a escola vem com suas raízes, tentando retomar a grande essência de uma verdadeira escola de samba”, finaliza os artistas.