Vai-Vai

"Eu venho de um lugar onde não se sonha", diz Grazzi Brasil

Com 30 anos, ela diz que foi graças à participação no Carnaval 2017 com a "Escola do Povo" que sua carreira decolou

01/11/2017 Redação Liga SP - Foto: Vai-Vai

Grazzi Brasil sempre quis cantar. Um sonho comum a muitas crianças, não fosse por importante fator: de onde ela vem não se sonha. Filha de mãe solteira, com seis irmãos, grávida aos 15 anos e moradora de uma comunidade humilde de São Paulo, foram muitas as barreiras a vencer para manter vivo o desejo de viver da música.

Primeira mulher intérprete oficial de uma das mais populares escolas de samba paulistas, a Vai-Vai, Grazzi admite que nunca imaginou chegar onde está. Hoje com 30 anos, ela diz que foi graças à participação no Carnaval 2017 com a "Escola do Povo" que sua carreira decolou.

Na primeira parte da entrevista ao site da Liga SP ela abre o coração e conta um pouco de sua história:

Liga SP: De onde veio a vontade de ser cantora?
Grazzi Brasil: Desde muito pequena, parece meio cliché, eu dizia que queria ser cantora. Na escola, quando perguntavam "qual é seu nome e o que você quer ser?", eu falava "meu nome é Graziela e quero ser cantora". Todo mundo ria. Aí eu fiz basquete durante dois anos e meio na USP, no projeto Ayrton Senna, porque eu morava em uma comunidade da região. Lá me ouviram cantar e o treino não começava enquanto eu não cantava. Eu tinha uns 10 anos. Eu tinha que cantar um pouquinho, morrendo de vergonha. Eu sempre quis cantar, vem do meu avô, que eu não conheci, mas era violonista e cantor. Minha mãe é muito afinada, minha tia, minha prima... Só que a cara de pau sou eu.

 

Liga SP: Depois que te "descobriram", como foi?
Grazzi: Eu tinha um namorado em uma outra comunidade e ele tinha uns amigos que são os meninos da banda Blackzuka. Foram os primeiros que me deram a oportunidade de cantar num palco, de saber o que é entrar depois de uma introdução de uma música. Eu não tinha noção. E aí me ouviram cantar e falaram "quem é essa 'mina' cantando?". Eu tinha 13 anos. Falaram "vamos cantar com a gente" e eu morria de vergonha, cantava olhando pro chão. Só que eles me ajudaram demais.

 

Grazzi Brasil - 2

 

Liga SP: E depois? Passou a fazer aula?
Grazzi: Nunca fiz aula, sou uma preguiçosa (risos). Veio tudo naturalmente, de ouvido. Agora no musical "Cartola", que eu faço parte, que eu tive a oportunidade de saber uns aquecimentos, algumas coisas.

 

Liga SP: Como era lidar com esse sonho dentro de casa?
Grazzi: Não era fácil. Eu venho de um lugar onde não se sonha. É muito difícil. Em seis irmãos, minha mãe solteira... Ela nunca teve tempo pra falar "esse canta, esse desenha". Meu irmão desenha demais e não teve esse tempo. Minha mãe sempre teve que trabalhar muito e eu lembro da gente indo pra creche. Ela era cozinheira e sempre ia cantando comigo. Só que eu fiquei grávida aos 15 anos e a história se repetiu: fui mãe solteira, como minha mãe. E aí eu sumi um pouco da banda porque fiquei meio envergonhada. Os meninos descobriram, foram atrás de mim e começamos os ensaios de novo. Amamentando e cantando. Aí eu já tinha 16 anos e ia todos os dias. Subia um morro, descia outro, subia outro... É uma história de bastante luta, não foi mole chegar até aqui. Não foi mole chegar nesse turbante dourado e vestido branco (risos).

 

Liga SP: Sua mãe te apoiava?
Grazzi: Rolaram umas broncas porque eu era mãe com 16 anos. "E aí, você vai cantar ou vai trabalhar? Como é que vai fazer?". E eu fui trabalhar em loja. Dizia "eu vou, mas quero é cantar". Era a realidade, né. Eu hoje super entendo. Mas quando via estava lá no estoque de roupa cantando. Chegava alguém e falava "Grazzi, canta uma música pra gente". E passou um tempo e eu falei "não, não é isso. Eu amo é cantar". Mas era difícil, tempos difíceis.

 

Liga SP: Como o Carnaval entrou na sua vida?
Grazzi: Há quatro anos, um amigo meu chamado Jorginho Soares, que hoje é da Dragões da Real, falou: "Grazzi, vamos gravar um coral aqui, tenho umas defesas de samba". Perguntei como funcionava e ele disse: "você tem que cantar o samba, tem um tempo lá, mas tem que mostrar energia, sorriso no rosto. Representar". O primeiro samba aqui na Vai-Vai foi de 2014 para 2015 e foi o da Elis. Foi o vencedor. O que a Didi Gomes, que é da nossa ala musical, faz lindamente é aquele alusivo e eu fiz na final. Só que eu não era de Carnaval, então eu fiz e sumi. No outro ano, a França, o Zeca (Zeca do Cavaco) e o Zé Carlinhos, compositores também da Elis, me chamaram de novo. Ganhamos de novo.

 

Liga SP: Tinha alguma ligação com a Vai-Vai ou alguma outra escola?
Grazzi: Nada, nada. Com nenhuma. No ano passado, 2016 para 2017, aconteceu de eu não estar no time do Zeca e Zé Carlinhos. Nisso o Marcelo Casa Nossa, que hoje é nosso produtor musical, maravilhoso também, me chamou para ir com ele. Falei "pô, estou sempre com o Zeca". Mas o Jorginho falou "você vai porque você precisa trabalhar" e eu vim sem nenhuma pretensão. Mas essa escola tem um lance diferente de todas as outras. Me desculpem as outras, não é porque estou aqui, não. É diferente, tem um 'quê' a mais. E minha família é toda Vai-Vai. Eu nunca pensei. Aí, gravei com os caras e foi acontecendo.

 

Liga SP: E "Menininha, mãe da Bahia" é um samba fantástico...
Grazzi: Nossa, que samba lindo! Eu falei "o que está acontecendo?" E o Casa Nossa já tinha me falado "Negrona, tu 'tá' preparada?" Já tinha defendido o samba, não vai acontecer nada, "vambora". Samba lindo, chorei quando ouvi. Tomou uma proporção que eu nunca imaginei na vida. Aí tudo mudou. As pessoas começaram a me enxergar. Que felicidade! Eu amo tanto o que eu faço, que bom que estão enxergando. Que bom! E depois disso, mesmo ficando em terceiro, me deu uma visibilidade muito grande. Porque isso aqui é a "Escola do Povo", maior escola de São Paulo, é a Vai-Vai. Tanto é que eu comecei a fazer coisas no Rio de Janeiro e estou aí, entre Rio e São Paulo, gravando coisas não mais como coral e sim como frente. E aí foi acontecendo e viemos esse ano com Gilberto Gil, com o mesmo time, Marcelo, os Gêmeos, o Gui, Dema, Edgar, André Ricardo... E esse samba lindo! E a escola me abraçou. Me abraçou, eu não tenho nem palavras, eu nunca pensei.

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