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Fábio Gouveia: um acaso que o transforma em profissional de Carnaval

Com 12 anos dedicados ao seguimento, o atual carnavalesco da Imperador do Ipiranga quer trazer a escola de volta à elite do Carnaval paulistano

27/02/2019 Redação Liga SP - Foto: Divulgação


Para todos aqueles que mexem com arte, cenografia e figurinos trabalhar no Carnaval pode ser a porta para muitas oportunidades, tanto financeiras quanto de conhecimento profissional. Para o artista, Fábio Gouveia, esse pensamento foi de suma importância, principalmente para o desenvolvimento de sua carreira. Trabalhando como cenógrafo no antigo parque Playcenter, localizado na zona norte da capital paulista, aos 18 anos, surgiu através de um amigo de faculdade, a primeira oportunidade de ingressar no segmento.

Admirador da festa desde a infância, mas sem ter uma família efetivamente ligada ao Carnaval, Fábio, não pensou duas vezes, formado em Artes Plásticas pela escola Panamericana, ele ingressou no barracão da Nenê de Vila Matilde e ao lado de Augusto Oliveira, carnavalesco da época, deu seus primeiros passos como aderecista. “Eu passei pela Mocidade Alegre, pela Vai-Vai e pela Unidos de Vila Maria, sempre como aderecista. O primeiro Carnaval que eu assinei foi no ABC, fiquei por lá alguns anos até retornar para São Paulo, em 2010”, recorda.

E foi a Colorado do Brás que abriu as portas para que Fábio assinasse aqui na capital o seu primeiro Carnaval. “O enredo era “Da descoberta a chama da razão a Colorado descobre o fogo”, porém, não tivemos um resultado muito favorável, e foi aí eu migrei para a Independente Tricolor, onde permaneci por quatro anos, 2011 em uma Comissão de Carnaval e nos anos seguintes, 2012, 2013 e 2014 assinando os desfiles, sempre com excelentes resultados, deixando a escola inclusive no Grupo de Acesso”, relembra.

Na intenção de viver novas experiências, em 2015, Fabio aceita o convite do então presidente, Eduardo de Lukas, e faz a direção de carnaval e no ano seguinte assina ao lado de Fernando Dias o enredo “A Imperador reluz esperança com... Don Quixote De la Mancha”, ambos pela Imperador do Ipiranga. “Foram dois anos muito importantes, de crescimento profissional e que me fizeram amadurecer, neste Carnaval solo de 2016, eu conquistei a quinta colocação pelo Grupo de Acesso”, comenta.

Em 2017, há convite do presidente Batata, o artista assume a direção de carnaval da Independente Tricolor e trabalha ao lado de Vinícius Freitas, filho do consagrado Jorge Freitas, a escola é vice-campeã do Grupo de Acesso. Em 2018, o artista decide dar um tempo dos barracões e fica fora do Carnaval, retornando agora com força total para trazer de volta o orgulho que a comunidade sente da Imperador do Ipiranga deseja. “Minha história dentro do Carnaval é curta, mas com grandes alegrias, confesso que realmente não imaginaria que chegaria onde eu cheguei. Tive muitos ensinamentos, bons amigos e muita força de vontade para não desistir, mesmo quando pensava que não seria capaz”, argumenta.

Hoje com 37 anos e sempre remunerado, Fábio acredita que as mudanças presentes nesses 12 anos que ele integra a festa, foram muitas, mas que ainda, infelizmente ele não consegue viver apenas de Carnaval. “As escolas mudaram demais, o jeito de produzir e de fazer o seu Carnaval como um todo, e principalmente na construção dos projetos. Hoje além de cuidar do Carnaval da Imperador do Ipiranga eu continuo dando as minhas aulas no CEU, de Mauá, durante os meses que antecede o Carnaval, apenas no período da manhã, após a festa, eu assumo um cargo horária maior, por muitas vezes integral, além de conciliar com a Secretaria de Cultura da cidade”, afirma.

Prometendo uma cara nova para a Imperador nesse desfile, Fábio, é preciso em dizer que a agremiação precisava dessas mudanças, apesar de suas tradições. “Hoje o Carnaval tem uma exigência básica, organização, a escola que não tem um planejamento não avança e não cresce, fica parada no tempo. Mudamos a forma de fazer Carnaval, de produzir e principalmente de trabalhar o nosso componente, acreditamos que no futuro isso será muito gratificante para a entidade”, reitera.

Desenvolvendo o primeiro enredo afro da história da Imperador do Ipiranga, Fábio declara como o público irá ver “Orun Aiyê e o mensageiro do mundo”, na passarela do samba. “O enredo é da presidente Leda do Carmo, e nós vamos retratar a história de Exu, ele que é o orixá da comunicação, da paciência, da ordem e da disciplina. Vamos contar como foi a criação do mundo, baseada na lenda de Yorubá, trazendo isso para o Brasil. Vamos detalhar como a sua evolução interferiu e interfere até hoje na vida das pessoas. Com Exu tudo se transforma, não existe a mentira, existe a verdade nua e crua, e era isso que a Imperador precisava”, explica.

Tendo como fonte de inspiração o seu mestre, Augusto Oliveira, o artista confessa que tem admiração também por profissionais da nova geração. “Tenho muita afinidade com o trabalho do Sidnei França, que hoje está na Gaviões e o Wagner Santos, da Acadêmicos do Tatuapé. Mas jamais poderia deixar de citar o Mago, Jorge Freitas, que sempre foi meu professor, sei que sempre que precisar posso contar com um conselho desse trio”, complementa.

Ciumento e com dificuldades para delegar funções, desfeitos que o Carnavalesco brinca ao apontar. “Falar da gente é sempre mais difícil, eu sou muito ciumento, acompanho todos os detalhes dos carros, das fantasias, dos componentes, eu quero que as pessoas sintam a minha presença. Eu me meto em tudo, vou no casal, na comissão de frente, na bateria, enfim, isso é de mim, o espetáculo deve ser um conjunto para que tudo aconteça. Durante dez anos eu me envolvi com teatro, e por isso, acho que tenho esse habito, que estou aperfeiçoando e tentando melhorar a cada dia”, justifica.

Mesmo com passagens por várias agremiações, Fábio, acredita que o profissional deve sempre se envolver com a escola que no momento está trabalhando. “Tenho um carinho indescritível pela comunidade da Nenê, um amor imenso e uma eterna gratidão pela Independente Tricolor, mas hoje o meu coração é Imperador. Eu sonho em devolver a dignidade para essa comunidade, uma escola fragilizada e que está confiando demais no meu trabalho. Estou canalizando todo o meu amor a esse povo que está machucado e sedento por um resultado positivo”, conclui seu bate papo exclusivo com a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo!