Divulgação

Fernando Dias: quando o acaso te leva para o barracão de uma escola de samba

Avesso ao Carnaval, o artista se tornou profissional da arte por intermédio do também carnavalesco carioca Fábio Ricardo

25/02/2019 Redação Liga SP - Foto: Divulgação

Quem disse que ser carnavalesco vem de berço? Que necessariamente é preciso ter membros da família ligados a uma escola de samba para que de repente você se torne um profissional da arte? A maior prova está em um dos integrantes da Comissão de Carnaval da Barroca Zona Sul, Fernando Dias, ele entrou por acaso em um barracão, mas pelo visto a paixão à primeira vista, ganhou uma segunda chance, e o namoro, virou casamente e segue firme e forte até os dias de hoje, e parece que essa paixão, só cresce!

Natural de São Gonçalo, município do Rio de Janeiro, e ainda na fase da adolescência Fernando trabalhava como office boy, e entre uma entrega e outra, uma ida ao banco ele conheceu a esposa do mestre de bateria da Portela, e ela o convidou para participar de um ensaio na quadra da escola, e ele, aceitou. “Na minha cidade, tinha duas escolas em fase de crescimento, Viradouro e Porto da Pedra, mas como recebi esse convite de conhecer e posteriormente desfilar na Portela, eu resolvi ir, meio que de curioso. Só que com a ascensão da Viradouro eu acabei migrando para lá, afinal, era mais perto de casa e todos os meus amigos queriam prestigiar a escola do bairro, sendo assim, virou lei, de dia ir para praia e a noite para a quadra da Viradouro”, relembra.

Aos poucos o samba começou a se enraizar na vida de Fernando, e o agora funcionário de uma loja de departamento, sofre um baque, é foi demitido, e sem muitas opções de trabalho resolve aceitar a oferta do amigo, Fábio Ricardo, que na época desenvolvida seus primeiros trabalhos em barracão, a ideia era que Fernando fosse com ele para Viradouro para trabalhar ao lado de Joãosinho Trinta, e não é que esse caldo deu uma boa sopa. “Eu nunca tinha colado uma lantejoula, mas estava sem trabalho e o que apareceu foi essa oportunidade e eu abracei, fiquei tão envolvido que estou até hoje abraçado a ideia, e lá se vão exatos 21 anos dedicados ao Carnaval”, brinca.

Reforçando a ideia de que muita coisa se aprende na prática e com muita força de vontade, Fernando, declara que é autodidata. “Eu comecei enrolando TNT em cadeirinha de vine e de lá pra cá olha tudo que aprendi e conquistei. Percebo que a cada ano que passa eu me desenvolvo mais. Hoje eu sou um pouco de tudo dentro do barracão, costuro, adereço, pinto, esculpo e até sou meio psicólogo dos meus funcionários quando eles precisam desabafar, sempre tento ter uma palavra de conforto”, comenta.

Em busca de novos horizontes, Fernando revolve se aventurar na terra da Garoa e passar duas temporadas desenvolvendo projetos na Mocidade Alegre, em 1999 e 2000, ao lado do Carnavalesco Wagner Santos e na sequência, as oportunidades foram surgindo. “Depois de São Paulo eu voltei para o Rio, fique três anos na Mangueira, depois Caprichosos de Pilares e Rocinha, lembrando que nunca como Carnavalesco, sempre ajudando na confecção das fantasias, na composição de carros, ajustes em alegorias, enfim, um pouquinho de tudo dentro do barracão. Em 2006, a convite do Wagner Santos eu volto mais uma vez para São Paulo, agora para trabalhar com ele na Vila Maria, e foi uma experiência linda”, confessa.

Em 2009, sentindo a necessidade de assinar o seu próprio Carnaval, Fernando decide aceitar o convite de Paulo Serdan, e ao lado de Alexandre Pavão desenvolve o projeto da Mancha Verde. “Eu cuidava do barracão e o Alexandre a parte de fantasias, e daí em diante não parei mais de assinar Carnaval, fiz Nenê de Vila Matilde, primeira vez que me consagrei campeão, pelo Grupo de Acesso, fiz Carnaval em Manaus, voltei para São Paulo e Imperador do Ipiranga, Torcida Jovem, Brinco da Marquesa, enfim, é uma trajetória árdua e que hoje me colocou na Faculdade do Samba”, comemora.

Integrando a Comissão de Carnaval do Barroca Zona Sul ao lado de Rogério Sapo e Yuri Aguiar, o tri de artistas desenvolve o enredo “Okê Arô” e Fernando contou alguns detalhes de como iremos ver desse projeto na passarela do samba. “Vocês vão ver uma Barroca diferente, vamos retratar a história de Oxóssi, e seus principais legados, a fartura, os instrumentos e as suas descendências. Vale ressaltar também segundo a lenda ele era o irmão mais novo de Ogum, e isso será descrito no nosso desfile também”, complementa.

Quem diria que aquela pessoa que sentia calafrios ao ouvir falar de Carnaval poderia viver disso e não se arrepender. Quando questionado se existe algum lamento por se dedicar tantos anos de sua vida a maior festa popular brasileiro, o artista não hesita em dizer que os arrependimentos são passageiros. “Eu amo aquilo que eu faço, tudo tem muito amor, carinho e dedicação. Ás vezes eu me privo de muitas coisas da minha vida pessoal para acompanhar todos os detalhes de um projeto. Quero sempre analisar o horário do desfile, saber exatamente o material que vou usar, se é possível ter ou não brilho, luz, pluma, enfim, tem que abrir mão de muita coisa para tentar sucesso no desfile”, enfatiza.

Joãosinho Trinta, Fábio Ricardo e Wagner Santos são seus grandes mestres, artistas que o inspiraram desde o início de carreira. “Essas três pessoas eu tiro o chapéu, Joãosinho tinha uma cabeça que até hoje eu não sei de onde surgiam tantas ideias fantásticas. O Fabinho, por todos os ensinamentos na área de desenho e por ter me dado aquela primeira chance, e aqui em São Paulo o Wagner, um dos caras que mais entende de Carnaval na atualidade, e que eu sei que se precisar posso contar com ele, sinceramente de cada um eu acabei tirando um pouquinho e isso me torna a cada dia um profissional mais completo e disposto a aprender”, complementa.

Para finalizar esse bate papo exclusivo com a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, questionamos o grande sonho de Fernando Dias. “Sonho e busco dia-a-dia ser um grande Carnavalesco, luto muito e me espelho demais no Wagner Santos por exemplo, ele é minha fonte de inspiração, eu sonho demais em conquistar um título no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, hoje essa seria a minha consagração”, conclui!