Pedro Pinotti - Carnavalesco - RX

Pedro Pinotti celebra 42 Carnavais assinando projeto na Torcida Jovem

Com passagens marcantes por várias escolas de São Paulo, o Carnavalesco comemora a data fazendo o que mais gosta: trabalhando

04/02/2019 Redação Liga SP - Foto: Pedro Pinotti - Carnavalesco - RX

Com mais de quatro décadas dedicadas ao Carnaval de São Paulo, Pedro Pinotti, atual Carnavalesco da Torcida Jovem, é mais um apaixonado pela maior festa popular brasileira, e como tantos outros profissionais começou de forma inusitada.

Recém-casado e trabalhando com projetos de decoração para sustentar sua família, nos feriados de Carnaval, Pedrinho, como também é carinhosamente chamado no mundo do samba, partia para a casa do sogro, em Valinhos, para agradar não só a sua esposa, mas também a família dela, resolveu fazer uma fantasia e a inscreveu no concurso que acontecia anualmente nessa época no clube da cidade, e não é que deu certo, ela ganhou o primeiro lugar! “No primeiro ano, fiz um índio apache e ela conquistou o primeiro lugar, no segundo ano ousei, fiz um palhaço e mais uma vez veio o primeiro lugar, até chegar num ponto onde os troféus não cabiam mais na casa dos meus sogros”, relembra.

Depois dessa passagem, o ainda admirador dos bailes de Carnaval teve a oportunidade de ver pela TV, ainda branco e preto os desfiles das escolas de samba, e simplesmente se encantou. “Quando vi o primeiro desfile na TV, apenas olhei para a minha esposa e disse, é isso que eu quero fazer da minha vida. Desse dia em diante comecei a pesquisar, e por coincidência um amigo, José Antônio, que sabia do meu potencial como desenhista me convidou para trabalhar em uma escola de samba. Ironia do destino, foi na Colorado do Brás que surgiu a primeira oportunidade, a partir do momento que eu pisei em um barracão, tive a certeza, jamais sairia”, comenta.

Sonhando alto e ainda sem conhecer muito bem o mundo do samba, o mesmo amigo leva Pedro Pinotti para conhecer a Mocidade Alegre, na época presidida pelo lendário Juarez da Cruz e nesse primeiro contato já acontece muita afinidade. “Eu cheguei e ofereci a doação de um carro alegórico, sei lá onde estava com a cabeça, nem dinheiro para isso eu tinha, mas queria me sentir parte daquele contexto. Em meio a muitas gargalhadas tive uma aula de como funciona os projetos dentro de uma escola de samba e entendi que deveria começar saindo como componente da escola e não queimar etapas. Virei componente e depois chefe de ala, e seguia sonhando alto, e algo me dizia que depois dessa experiência nada seria como antes. Me lembro que desenhei a ala “Pé no Chão” e essa ala conquistou o estandarte de ouro”, afirma.

Ousado e confiando no seu taco no ano seguinte ele quis mais, e conseguiu. “Além de desenhar dez alas eu também desenvolvi o projeto de um carro alegórico, ao lado do então Carnavalesco, Edson Machado aprendi muito e tenho boas recordações dos quatro anos que por lá permaneci. Tive passagens em muitas escolas... Nenê de Vila Matilde, Leandro de Itaquera, X9 Paulistana, Acadêmicos do Tucuruvi, Imperador do Ipiranga, Pérola Negra e momentos marcantes e intensos na Rosas de Ouro”, lembra.

Sua convivência com Eduardo Basílio também durou bons anos, e trouxe até um título para o seu currículo. “Minha relação com Seu Basílio sempre foi mais de família do que patrão e empregado, todo ano eu dizia que ia embora, mas ele sempre me convencia a ficar. O ano de 1984 foi muito especial, conquistamos o título para a Sociedade Rosas de Ouro com o enredo “A velha academia berço dos heróis”, foi inesquecível”, descreve.

Casado a 55 anos com a Dona Sonia, sua parceira de vida e de desafios carnavalescos, Pedrinho tem dois filhos, Erica e Alexandre, três netos e dois bisnetos. Aos 78 anos, ele se declara um homem sem arrependimentos. “Tenho três razões para não ter nenhum tipo de lamentação, o emocional, o fato de nunca ter trabalhado por dinheiro e ter sempre o apoio da família. Desde o primeiro momento sempre tive a Sonia do meu lado e até hoje é assim”, completa.

Agradecido, Pedro Pinotti considera quatro pessoas sua grande sustentação desde o início de carreira, e porque não até hoje. “Juarez da Cruz, Eduardo Basílio, Alberto Alves da Silva e Geraldo Filme, são quatro lendas, pessoas heterogênias e que deixaram enormes lacunas no Carnaval. Eles eram conhecedores das raízes do samba, além de serem administradores por excelência”, conclui com saudade.

Defendendo as cores da Torcida Jovem a exatos 13 anos, o artista revela que durante 32 anos conciliou a vida de Carnavalesco com a de cenógrafo do Teatro Municipal, local inclusive que lhe rendeu a aposentadoria. “Eu cheguei a desenvolver projetos em cinco escolas juntas, uma em Minas, outra em Peruíbe, litoral de São Paulo, outras duas aqui na capital e outra na Bahia, imagina como era minha vida, e ainda tinha o municipal, mas foi, e foi por vários anos, não tinha tempo, tinha muito trabalho”, reafirma

Contabilizando mais alegrias do que decepções, o Carnavalesco acredita que as frustrações acarretam mais marcas no coração. “Apesar de ter mais alegrias que decepções eu considero as decepções marcantes e não derrubam a dor que fica no peito por muitos e muitos anos. Algumas pessoas me consideram indigesto, talvez por me dedicar ao trabalho e por acreditar que não importa o grupo que eu esteja trabalhando, a minha entrega será sempre a mesma. A única diferença do Carnavalesco que faz o Grupo Especial para o Grupo de Acesso 1 ou 2 é a verba, o restou, é tudo igual. Nos meus primeiros 15 anos como Carnavalesco eu fui o que mais deu entrevista, fez capa de jornal e recebia inúmeros repórteres no barracão. Definitivamente eu não tenho do que reclamar ”, reitera

Desenvolvendo o enredo “No batuque do tambor, nosso samba e raiz e tradição”, o Pedro Pinotti defini de forma precisa o que iremos ver na passarela do samba. “Apresento um enredo afro, porém, alegre. Temos a chegada das nações africanas e com elas várias etnias, tudo de forma clara. Queremos fazer direitinho, sem inventar muito, até porque a história já é conhecida e já passou de alguma maneira pela passarela do samba. O que vale é reinventar esse enredo afro, porém de uma forma mais alegre”, resume.

Para finalizar esse bate-papo exclusivo com a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, Pedrinho declara que conquistou tudo que estava ao seu alcance e que prefere hoje regrar sua vida de forma mais contida, respeitando a sua idade. “Eu vivi histórias que poucos viveram dentro e fora do Carnaval, trabalhei com pessoas memoráveis, vi Bolshoi, Tchaikovsky, The Royal Ballet Scholl e tantos outros no municipal, realmente eu sou privilegiado”, finaliza.