2 2 4

DIAS PARA O CARNAVAL!

Liga SP

Pérola Negra traz componente de volta e projeta Carnaval 2019 ainda melhor

Carnavalesco Anselmo Brito analisa dificuldades e trabalho da escola em 2018 e fala sobre enredo sobre mulher negra para o ano que vem

11/04/2018 Redação Liga SP - Foto: Liga SP

Não é exagero dizer que a Pérola Negra era uma incógnita antes do Carnaval 2018. Com nova diretoria, sofrendo com o afastamento de seus componentes e a perda de seu patrimônio após um incêndio em seu barracão, a escola teve que superar muitos desafios para apresentar um grande desfile.

Da impressão externa que a escola lutaria para se manter no Grupo de Acesso à confiança interna que a briga era mesmo por uma vaga no Grupo Especial, o carnavalesco Anselmo Brito fez um grande balanço sobre a disputa passada e o quinto lugar alcançado na segunda divisão.

E, com enredo já definido para o ano que vem - a Pérola irá falar sobre a mulher africana e seu contexto no Brasil atual -, o profissional conversou sobre o planejamento para conseguir levar a agremiação de volta à elite do Carnaval de São Paulo:

Liga SP - Havia a impressão externa que a Pérola desfilaria em 2018 para não cair. Era essa a realidade da escola?
Anselmo Brito - Havia dois momentos de Pérola Negra no ano passado. A primeira impressão de quem está fora era de uma escola no decorrer do projeto, que não teria chances de disputar o título ou de uma boa colocação por ter vindo de vários problemas. Essa é uma visão que eu digo que é mais de fora. Dentro da escola havia uma outra situação. Havia uma presidente recém-chegada, porém que já era daqui, conhecedora dos problemas. Ela montou uma diretoria muito determinada em querer fazer um grande Carnaval, até porque ela tinha necessidade uma vez que ela cobrava da outra diretoria resultados. Quando você aposta, acaba tendo a obrigação de mostrar o seu melhor e foi o que ela fez. Tanto é que quem esteve no Anhembi viu um Pérola Negra completamente diferente. Dizia-se que a escola não ia terminar suas alegorias, mas nós chegamos com alegorias superiores a muitas que estavam ali, dignas de Grupo Especial. Nós trabalhamos com um grupo muito reduzido, mas focado em resultado.

Liga SP - Estava difícil trazer o componente da escola para a avenida?
Anselmo - Sim, e por quê? A escola sempre foi de um bairro, que é a Vila Madalena. E na outra administração ela foi levada para o Butantã, muito distante. Muitas pessoas se afastaram. E claro que tinha esse resgate. Se tornou assustador no começo porque a gente ficava com aquele receio "será que a Vila Madalena vai voltar, será que esses componentes irão voltar?". E nós conseguimos, sim. Nós conseguimos resgatar não 100% do que a gente queria, mas foi uma semente plantada para o próximo Carnaval. Nós conseguimos colocar 1600 componentes no Grupo de Acesso, é um número grande. E conseguimos apresentar um Carnaval que foi planejado. Em nenhum momento nós fizemos um Carnaval por ter que fazer ou por desepero. Ele foi planejado em cima de todos os obstáculos que tínhamos naquele momento. E deu certo.

Liga SP - A volta do componente é a maior conquista para 2019?
Anselmo - Sim. Era o que nos preocupava, porque você quer voltar pra elite e precisa mostrar essa força. Mais do que isso foi a questão plástica, de você ter ali uma disputa dura, porque o Carnaval de São Paulo cresceu demais. Todas as escolas que estavam se apresentando tinham condições de estar no grupo de elite. Todas muito bem preparadas. Claro que detalhes fizeram a diferença e fizeram também com o Pérola Negra.

Liga SP - Como você encara o quinto lugar de 2018?
Anselmo - Acho que houve excessos na hora de julgar. Acho que melhorou muito a questão do julgador. A Liga vem fazendo um trabalho de excelência nessa questão do julgador. O que tirou da disputa o Pérola Negra foi o quesito samba de enredo. Nós tínhamos um samba, e isso já é uma opinião muito particular como artista, que era poético, que tinha uma melodia interessante, que atendeu todas as necessidades do Pérola Negra. Tanto é que a escola cantou, o samba foi muito celebrado aqui dentro e nós perdemos muita nota porque o julgador dizia que não era interessante a melodia, que faltou poesia. Nós sentimos que houve uma opinião muito pessoal, que é um direito que ele tem como julgador, mas que acabou penalizando demais. Olhando as notas e por tudo que a gente estudou onde errou e acertou, percebemos que nossa chance era muito grande de estar de volta ao grupo de elite, fizemos Carnaval para isso. A gente contesta algumas decisões, mas são decisões que tem que ser trabalhadas. Em cima disso estamos pensando o Carnaval 2019.

Liga SP - A escola está em uma condição melhor pra produzir o próximo Carnaval?
Anselmo - Hoje a escola tem um planejamento. Esse é o diferencial do Pérola Negra. No ano passado nós sabíamos a real situação da escola e até onde poderíamos ir. Nós fomos e até ultrapassamos o que poderíamos. A situação hoje é melhor. Para que as pessoas entendam a grandiosiade que foi o Pérola Negra e a certeza de que mais uma vez vamos fazer um grandioso espetáculo, até maior do que foi esse ano, nós passamos por um processo de troca de presidente, a escola tinha algumas dívidas administrativas, nós tivemos a perda de nosso barracão em um incêndio. Ressurgimos das cinzas de fato. A gente já saiu atrás de todas as outras escolas. Qual a diferença esse ano? É não começar do zero. Nós já temos uma estrutura. Estamos trabalhando ainda com a possibilidade de retonar à Fábrica do Samba 2. Olha todos os obstáculos que o Pérola Negra sofreu...

Liga SP - Por isso que eu falei daquela impressão de fora que iam brigar pra não cair.
Anselmo - Essa era a impressão que quem estava de fora tinha. Mas aí você vê que houve um planejamento e um trabalho da diretoria. A nova diretoria já mostrou que tem condições de fazer grandes espetáculos aí. E depois que nós estávamos montados na concentração, após ouvir o ano inteiro que você não é favorito, chegar lá e mudar todo esse cenário e nos colocar na disputa do campeonato... Essa é a maior vitória de qualquer profissional. Só que Carnaval é técnico, não é só plástico. Carnaval é técnico, onde estamos arrumando.

Liga SP - Como está o planejamento para o Carnaval 2019?
Anselmo - No Pérola Negra a temática do enredo é trabalhada em cima do que dá para ser reaproveitado, o que podemos reaproveitar desse Carnaval para o próximo. Isso reduz um pouco mais o custo. Uma semana antes de terminar o Carnaval, quando a escola me convidou pelo terceiro ano para retornar, já tínhamos o planejamento. Foi escolhida uma temática africana por conta dos materiais que nós tínhamos tanto desse ano como de outros anos. Já temos um enredo, a sinopse, temos todos os departamentos definidos e eu já estou na parte de desenvolvimento plástico.

Liga SP - Para 2019, como chegaram no enredo sobre a mulher africana?
Anselmo - Ele foi baseado na proposta de poder reaproveitar, de reciclar. Acho isso muito mágico. Tem pessoas que veem o fato de você reciclar materiais que você já utilizou como falta de criatividade. Não, pelo contrário, a criatividade está nisso. Você pegar aquilo uma escultura de um romano e no ano seguinte ela ser um índio. Você tem um trabalho de pesquisa, como vou que vou mudar o nariz, como mudar o rosto. Mexer na escultura pra que ela possa ter outro perfil. Isso exige pesquisa. Quem trabalha com reciclagem tem que ser muito mais criativo do que quem trabalha com algo inédito. E, outra, pela atualidade. Às vezes as pessoas dizem "ah, mas os temas africanos já foram muito explorados". Sim! Foram bastante, como inúmeros que vão se repetindo aí. Mas diz aquele ditado que você só volta àquilo que lhe é presente e marcante. Isso mostra o quanto é rica essa cultura africana e o quanto é expressiva a ponto de você novamente levá-la em cena, abrir as cortinas, colocar ele com uma leitura diferente. Cabe ao artista fazer um trabalho de pesquisa. Eu vou trazer uma África diferente de tudo aquilo que eu vi. Nosso enredo, além de ser plasticamente lindíssimo, é atual e é político. A temática não é a África só. São as mulheres africanas. É buscando isso e vou mostrar a importância dela, a necessidade dessa mulher ser exaltada e o por quê dela ser exaltada. As pessoas falam "ah, é uma coisa batida". Olha que absurdo! Todo mundo sabe que a escravatura acabou há muitos anos, mas hoje parece que o povo negro ainda está escravizado. De uma forma diferente, mas continua. E as pessoas querem, como em todas as áreas, colocar uma cortina pra esconder. O Carnaval é mágico por isso. Esse espetáculo é cultural e social. Tem pessoas que não conhecem a história do Brasil e passam a conhecer assistindo a desfiles de escolas de samba. Olha a importância que o Carnaval e a escola de samba têm.

Matérias Recomendadas