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Liga SP

Reedição de 1994 vem para autoafirmar identidade da Gaviões, diz carnavalesco

Sidnei França analisou o resultado do Carnaval 2018 e contou o que está preparando para o desfile do ano que vem

07/06/2018 Redação Liga SP - Foto: Liga SP

Um samba de enredo histórico voltará à avenida no Carnaval 2019. E o objetivo de Sidnei França com a reedição de "A Saliva do Santo e o Veneno da Serpente", de 1994, é autoafirmar a identidade da Gaviões da Fiel. Segundo ele, de luta e de força.

Em conversa com a Liga SP, o carnavalesco analisou o resultado conquistado em 2018 - sétimo lugar no Grupo Especial -, o processo para renovar seu contrato e falou um pouco do que já vem desenvolvendo para a disputa do ano que vem. Um ano, para o Gaviões, de união.

Liga SP - Como você avalia o Carnaval 2018 sob o seu ponto de vista e o dos Gaviões?
Sidnei França - Foi um resultado justo. Todas as justificativas, exceto uma de comissão de frente, mas ainda assim a gente tem que saber ponderar. Eu não sou um crítico ferrenho da atitude de outros sempre enxergando má fé, eu não tenho esse tipo de pensamento. Eu acho que a escola tem que pegar os resultados, as justificativas, e trabalhar de uma maneira construtiva. Então eu vejo que o resultado, para a Gaviões da Fiel, foi muito adequado. As justificativas foram coerentes, a escola teve erros perceptíveis em fantasias durante o desfile. E foi o quesito que mais prejudicou a escola, juntamente com comissão de frente, que, apesar de não ter uma certa concordância com a visão do jurado, eu também não desrespeito a visão dele. Ele tinha um ângulo diferente do meu para enxergar o que enxergou.

Liga SP - Qual foi o problema com fantasias?
Sidnei França - Duas questões. Primeiro, um dos jurados justifica que teria soltado uma perneira de um dos índios, porém, como os índios tinham alturas diferentes, as pessoas tinham alturas diferentes. Acabou que onde foi costurado o jurado interpretou que estava arreado. Mas é uma questão mesmo de olhar, sensibilidade de visão e acho que ele está ali com uma certa adrenalina e uma responsabilidade grande, então acho que preferiu pecar por excesso do que ser raso e deixar passar. Mas é só mesmo uma questão de interpretação de quem montou a roupa. De repente alguém no público concorda com o jurado. E um outro jurado que disse que a comissão de frente não apresentou a escola, que é uma das funções. E assistindo as vídeos a gente identifica movimentos de apresentação. Porém, de novo, de repente o jurado esperava um tempo maior. Como era uma coreografia indígena, talvez para ele tenha ficado tímido demais. Então a gente também tem que saber respeitar o olhar do outro. Eu respeito o olhar do jurado. A gente tem as nossas convicções, as nossas certezas, mas elas não podem morrer com a gente. A gente sabe que o Carnaval é para o mundo e o jurado faz parte desse mundo.

 

Liga SP - Internamente falando, foi um Carnaval do jeito que vocês imaginavam?
Sidnei França - Foi meu primeiro ano aqui e, olhando de fora, eu tinha a imagem de uma escola de torcida. Eu achava que ia chegar numa escola cheia de história no Carnaval, que é algo que eu respeito demais por revolucionar a estética do Carnaval paulistano na década de 1990, e ia encontrar uma escola mais sisuda, mais fechada, menos afeita a criações. E não foi isso o que eu encontrei. Eu encontrei uma escola ansiosa por um novo rumo, pela retomada de um passado glorioso. E é o respeito por esse passado que me move e me motivou para continuar em 2019. Desde a recepção, os departamentos, a diretoria e a comunidade me acolheram muito bem e hoje eu me sinto plenamente em casa. Foi um ano muito difícil para a escola no aspecto financeiro, mas no aspecto organizacional e de relacionamento eu só tenho a agradecer. A escola chegou no desfile muito feliz, no sentido de autoestima, o samba era muito bom e era o que eu queria: mostrar para o público que a Gaviões tem uma ideologia muito forte ligada ao Corinthians, mas também tem muita coisa a mostrar no sentido de histórias e narrativas. Isso tudo é reflexo de um trabalho desenvolvido para a escola buscar uma identidade.

Liga SP - Como foi esse contato e essa vontade de permanecer na escola, sabendo que havia um processo eleitoral no meio do caminho?
Sidnei França - Para fazer sentido o que eu vou falar, é preciso afirmar que o clima final do Carnaval 2018, independente de resultado, foi muito bom. Independente do que aconteceu na avenida, o processo foi valorizado muito mais do que o resultado em si, tanto da parte da escola como da minha. Quando acabou o Carnaval, das quatro chapas que concorreram na eleição, três entraram em contato comigo pedindo um voto de confiança para que eu não fechasse com ninguém. A chapa eleita foi uma dessas que me disse que, se ganhasse, eu continuaria. Fou uma confiança mútua.

Liga SP - Como vocês chegaram na ideia de reeditar o Carnaval de 1994?
Sidnei França - A linha de pensamento do novo presidente é de agregar, ele sempre fala muito isso nas reuniões. Ele é um cara das arquibancadas e tem um olhar ciente da importância que o Carnaval tem para os Gaviões da Fiel. A ideia é unir e não dividir. Toda vez que o Corinthians faz um gol, a torcida canta trechos desse samba de 1994. Na quadra é um sucesso total. Independente da popularidade, do que o mundo enxerga, internamente a escola se identifica. Em 1994 a Gaviões foi vice-campeã e foi muito dolorido, é uma frustração dos antigos. Outra questão muito forte veio quando tentaram tirar a Gaviões do Carnaval quando a Mancha Verde subiu. O torcedor apaixonado pela Gaviões viu tudo aquilo meio como que uma traição. Então junta tudo isso e virou meio que um hino. "Meu Santo é forte, não adianta me picar. Sou Gavião e você pode acreditar que não aceito traição". Além da questão do enredo, virou um hino de autoafirmação da identidade e da força. Mudam-se contextos, mas tem uma sementinha de DNA da escola que é reativado, aproveitando a melhor deixa possível pelos 25 anos, uma data emblemática.

Liga SP - E no ano que vem um outro samba histórico completa 25 anos. Já pensaram nisso?
Sidnei França - O samba de 1995 é exaltado, cantado em festas de formaturas. Ele é louvado porque é muito popular. Mas eu gosto ainda mais do de 1994 pela questão da identidade.

Liga SP - Como vão trazer esse desfile 25 anos depois?
Sidnei França - Antes de pensar em qualquer questão estética, eu fiz uma contextualização e remodelei. Nas pesquisas que eu fiz, atribui que o santo que foi picado pela serpente era Santo Antão, que é um santo real adorado na igreja católica. Porque ele pregou no deserto, então que eu fiz foi uma adaptação até para não correr o risco de ser mal interpretado numa época em que as pessoas acessam o Google. No enredo original, Maomé é o santo picado e poderiam argumentar que ele nunca foi um santo. Hoje o mundo está muito investigativo, então eu não quis passar uma insegurança que eu tinha do que eu percebi no passado para o futuro. O desfile passou por muita muita contextualização para caber no formato atual. O tabaco vira nicotina e vira fumo, a gente vai abordar a questão do tabagismo, então é muito universal.

Liga SP - A gente vive num mundo bem diferente de 1994, sobretudo nessa questão de tabagismo. Como você imagina essa parte?
Sidnei França - Quando a gente foi discutir se esse valia a pena ou não voltar 25 anos depois, um dos elementos que me fez ir adiante nessa ideia é um inconformismo sobre como hoje o mundo está quadrado e o mundo, careta em uma época com tanta informação. As pessoas querendo te dizer o que você pode que você não pode não você deve não deve e você tem que assumir bandeiras. Eu gosto de botar o dedo na ferida, então o que eu gostei foi justamente essa coisa de poder saber que a escola pode ser criticada. Porque eu acho que a sociedade só cresce quando aceita a discussão.

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