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DIAS PARA O CARNAVAL!

Sidnei França

Sidnei França: um perfil que reúne Carnaval, Cultura e História

Incansável na busca por informação, cultura e aprimoramento, ele divide seu tempo entre suas atribuições no barracão e a faculdade de História

31/10/2018 Redação Liga SP - Foto: Sidnei França

Quem disse que o Carnavalesco é uma figura folclórica? Que ele deve apenas desenhar ou arquitetar em uma maquete suas ideias futuristas? Um dos mais jovens e premiados profissionais desse seguimento em São Paulo, prova a cada desfile que hoje o artista que desenvolve um enredo, é muito mais que isso, é um Gestor Cultural.

Detentor de quatro títulos no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, o atual Carnavalesco da Gaviões da Fiel, começou muito cedo. Frequentador mirim da escola de samba Mocidade Alegre, Sidnei França se lembra com carinho deste início. “Quando a minha mãe ficou gravida, ela era muito nova, tinha apenas quinze anos, eu o primeiro filho e muitas dificuldades de adaptação, sendo assim, ela manteve alguns hábitos de juventude, e um deles era ir para os ensaios da Mocidade, ou seja, eu com dois anos já frequentava a quadra”, recorda.

Sem intenção nenhuma de se tornar um profissional, Sidnei, confessa, que em nenhum momento pensou, essa é a carreira que eu quero, vou ser um Carnavalesco. “Tudo sempre foi muito intenso. Eu frequentava a casa da ex-presidente, já falecida, Elaine Bichara, irmã da atual presidente, a Solange, vivia correndo pelo barracão, então eu desenvolvi um transito muito comum dentro da escola”, rememora.

Formado em economia pela Mackenzie, o Carnavalesco nunca realizou um estágio na área e muito menos tirou o diploma da gaveta. Em uma reformulação de material humano em 2003, ano em que Solange assume a presidência da Morada do Samba, o artista passa a ter mais espaço e credibilidade dentro do barracão. “Assumi dois cargos na escola, um como Diretor de Eventos e outro como integrante do Departamento Cultural. E como eu sempre gostei muito de escrever, contextualizar e montar histórias, acabei virando assessor dos Carnavalescos, primeiro Nelson Ferreira e depois o Zilkson Reis. Eu ajudava na sinopse, na revisão gramatical, contribuía com a parte histórica e com a coerência dos fatos. Apesar de ter aptidão, confesso que quem me ajudou a desenvolver essa outra faceta foi a Elaine Bichara. Ela sempre me dizia: o Carnaval é uma festa de linguagem popular e precisávamos traçar um ponto de equilíbrio nos nossos argumentos. Essa sempre foi a minha inspiração, eu tinha isso dentro de mim, mas precisava ser moldado e potencializado, e ela abriu o caminho”, relata agradecido.

Com apenas 24 anos na época e conciliando com um trabalho em uma empresa de segurança eletrônica, o jovem Sidnei França, ainda voluntário, começou a assumir a cada dia mais atribuições. “De 2005 a 2016 todos os enredos eu que propunha eram aceitos, e após a chancela da diretoria da Mocidade Alegre, eu vivenciava toda a estrutura de um Carnaval. Eu tinha a oportunidade de checar como estava o barracão, os carros e as fantasias, o trabalho era dar o ponto de partida para o desenvolvimento do projeto e lá no final depois que o Carnavalesco havia concluído o trabalho, eu voltava para fazer a defesa, a pasta dos jurados, ou seja, eu tinha que vivenciar o antes para no final fazer à argumentação. O desenrolar do enredo eu fazia sozinho, mas as demais tarefas sempre contei com o apoio importantíssimo de todos do Departamento Cultural”, argumenta.

Em 2008, Sidnei foi convidado a integrar uma Comissão de Carnaval que desenvolveria o desfile de 2009, é não é que deu certo? Com o enredo “Da Chama da Razão ao Palco das Emoções... Sou Máquina, Sou Vida... Sou Coração Pulsando Forte na Avenida” e ao lado, de Fábio Lima, Flávio Campello e Márcio Gonçalves, o artista conquista o primeiro título de sua carreira assinando oficialmente um desfile. “Essa ideia de Comissão foi muito frutífera, mas ao longo dos anos foi sendo reduzida, e de 2011 até 2015, ficamos apenas eu e o Márcio Gonçalves, e neste período, conquistamos três títulos (2012, 2013 e 2014) ”, relembra.

Sempre com seu senso de oportunidade aguçado e antenado com a realidade do local onde está, Sidnei França declara nunca ter escolhido efetivamente esse caminho para seguir, mas a sua aplicação em tudo que faz desde sempre, o fez se destacar. “Essa nunca foi a minha meta de vida, vou ser um Carnavalesco, as coisas aconteceram, e eu fui me envolvendo. Na época em que era voluntário na escola e trabalhava com carteira assinada tinha que batalhar muito para custear os meus estudos, como todo jovem de origem humilde. Na empresa que trabalhei conciliando com o Carnaval por exatos dez anos, eu sempre me interessei em aprender mais e mais, não sabia como seria o futuro, então, fui me engajando. Meu trabalho era dar treinamento, como era uma empresa de segurança, cada produto que chegava do exterior eu tinha que traduzir os manuais do inglês para o português e preparar uma apresentação para toda a área de vendas da empresa. Isso me ajudou demais a desenvolver a minha oralidade e escrita, afinal, todos os vendedores dependiam da minha explanação para alavancar as vendas. Eu cresci, me aperfeiçoei e aprendi não só o inglês, esses anos me fizeram despertar o interesse até por outras línguas”, afirma.

Sem o desejo de ter um rotulo e avesso a rotina, o artista gosta de fazer coisas que lhe preencham. “Quando eu assumi o desafio de viver de Carnaval, sabia que estaria diariamente no fio da navalha, com uma rotina de estresse e que constantemente eu seria testado. É um trabalho de alto rendimento no sentido de que você tem que entregar um produto muito bom, porém, nem sempre as condições são favoráveis. Lidamos com muitos imprevistos, dificuldades, limitações financeiras, operacionais e logísticas”, reforça.

Longe de se deslumbrar com tudo que já conquistou, quando questionado se voltaria no tempo e varia tudo de forma contraria, Sidnei, é firme na resposta. “Com certeza eu fiz a escolha certa, mas eu também não me vejo sendo Carnavalesco pelo resto de minha vida. Assim como um dia eu virei a chave e sai de uma empresa onde eu trabalhava de segunda a sexta, das 08h às 18h, e me desligava completamente no fim da jornada, e resolvi viver de Carnaval, isso não é algo que eu almejo eternamente. Explico, primeiro pela tensão e a intensidade que o mundo do Carnaval, propõem, além de não me desligar um só segundo dos meus 365 dias do ano, e segundo, porque eu preciso experimentar outros tipos de sensações, teatro, cinema, televisão todos esses seguimentos me provocam muita curiosidade, e sinto que preciso experimentar”, comenta.

Uma das maiores lições que o Carnavalesco se recorda ao longo de seus onze anos assinando desfiles foi em 2011, pela Mocidade Alegre, com o enredo “Carrossel das Ilusões”, na época, a agremiação amargou a sétima colocação. “Eu concebi e imaginei cada detalhe daquele enredo com o maior carinho, na hora da escola entrar na avenida um carro quebrou. No âmbito profissional foi a primeira vez que vivi tamanha frustração, confesso que foi uma verdadeira facada no meu peito ver que uma obra criada e desenvolvida não pode cumprir o seu trajeto. Aquilo num primeiro momento me fez muito mal, sabia que tive a minha parcela de responsabilidade, justamente porque insisti naquele painel de led, mas posteriormente aquilo me trouxe um aprendizado que talvez todos os anos de título não me trouxeram, eu senti a responsabilidade do criador, que por muitas vezes podem ser muito satisfatórias e por outras muito amargas”, desabafa.

Outro momento significativo dentro de sua carreira foi a oportunidade de desenvolver o enredo em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, pela Unidos de Vila Maria, em 2017. Apesar do sétimo lugar na classificação geral, foi um Carnaval marcante por toda a repercussão que ele gerou. “Viver tudo que eu vivi foi revolucionário, eu fui acolhido pelo Cardeal Arcebispo de São Paulo, e ele me falar que leu a sinopse do enredo e fico arrepiado, foi indescritível. São coisas que não mensuramos nem no resultado da avenida e nem no contracheque”, comemora.

Desenvolvendo o Carnaval pelo segundo ano na Gaviões da Fiel, Sidnei França, não tem dúvidas que está na escola certa, no momento certo e desenvolve um trabalho com muito amor. “Hoje a Gaviões vive um momento de resgate da sua história, da sua força, da sua raiz para se achar novamente entre as grandes. E eu estou aqui para contribuir nesse processo de realinhamento. Todas as escolas merecem ser campeãs do Carnaval, mas sabe quando você sente que a Gaviões precisa recuperar uma força que ficou no tempo. Aqui tem um povo tão apaixonado, e que confia no meu trabalho, deposita em mim a confiança de fazer bem feito. Eu vejo isso como esperança e serve como combustível, me motivando a cada dia”, reitera.

Para 2019, o profissional prepara a releitura do enredo de 1994, “A Saliva do Santo e o Veneno da Serpente” e descreve com muito entusiasmo o que iremos ver na passarela do samba. “O que eu busco é um desfile muito impactante, principalmente pela emoção que ele deve provocar em quem viu a primeira leitura e os que verão agora a minha versão. Houveram muitas mudanças ao longo desses anos, eu fiz algumas alterações de fatos, até porque com as pesquisas vi o quanto a ciência, a tecnologia, a educação, enfim, os seguimentos mudaram. Eu consultei o Carnavalesco da época, Raul Diniz, e expliquei exatamente as modificações que a humanidade sofreu durante esses 25 anos e ele adorou a plástica e me deu carta branca para seguir. O meu objetivo é transformar esse desfile em um momento único, não posso colocar na avenida algo que negue a mística de 1994, ela tem que agregar e não diminuir a história construída lá atrás”, afirma emocionado.

Maltratado por sua autocritica, Sidnei sempre precisa estar convencido de que aquilo que criou é razoável, só assim ele terá a certeza de que será algo bom para o mundo. “Sou sincero em te dizer, se não atende a minha expectativa não tem como atingir a expectativa do outro com expectador. Agindo assim eu sempre tenho a segurança que estou fazendo um trabalho de qualidade, isso não quer dizer que sou acima da média ou que meu trabalho é inquestionável, mas sim, quero sempre me criticar antes de entregar qualquer projeto”, reafirma.

Colocando um ponto final nesse bate papo exclusivo com a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, o Carnavalesco da Gaviões da Fiel, deixa uma mensagem a todos aqueles que assim como ele aprenderam a amar a agremiação alvinegra. “Eu escolhi estar na Gaviões da Fiel, não no sentido de poder preteri-la ou não, mas no sentido de ter esse sonho de trabalhar aqui. Sempre tive essa mística de que a escola contribuiu muito para o crescimento do Carnaval de São Paulo, rompeu barreiras, assim como outras agremiações. Gostaria que a comunidade nunca duvidasse do orgulho e da honra que sinto em vestir essa camisa. Em respeito ao passado e aos dias de hoje vamos nos unir e marcar uma história dentro da Gaviões”, finaliza!